Contador é preso a mando de Moraes por suspeita de vazar dados fiscais de autoridades e parentes de ministros do STF

Um contador está preso há mais de uma semana no Rio de Janeiro sob suspeita de envolvimento no vazamento de dados fiscais de familiares do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e de outras personalidades públicas. A detenção, mantida em sigilo, foi confirmada neste sábado (21) pela defesa do contador e pelo gabinete de Moraes.

A ordem de prisão partiu do próprio ministro Alexandre de Moraes, no contexto de um inquérito que investiga acessos irregulares a dados fiscais de magistrados e seus parentes. O contador, Washington Travassos de Azevedo, teria atuado como intermediário na obtenção dessas informações sigilosas da Receita Federal.

Conforme apurado pela Folha, Azevedo confessou à Polícia Federal ter sido a ponte entre uma pessoa interessada nos dados e outra com conhecimento para obtê-los. Os nomes envolvidos na operação permanecem sob sigilo, mas a defesa do contador alega dificuldades em acessar os detalhes da decisão judicial que determinou sua prisão, além de ordens de busca e apreensão e uso de tornozeleira eletrônica.

A Operação e a Extensão do Vazamento

Segundo nota oficial do gabinete de Alexandre de Moraes, o contador não apenas acessou dados de seus familiares, mas de outras autoridades e pessoas públicas. Ele é apontado como um dos mandantes na cadeia de obtenção de dados fiscais protegidos, dentro de uma suposta organização criminosa.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) indicou que o grupo, do qual Azevedo faria parte, teria acessado dados de declarações de Imposto de Renda (DIRPF) de 1.819 contribuintes. Entre os alvos estavam pessoas ligadas a ministros do STF, do Tribunal de Contas da União (TCU), deputados federais, ex-senadores, ex-governadores, dirigentes de agências reguladoras, empresários e outras figuras públicas de notoriedade.

Os crimes teriam ocorrido entre janeiro de 2024 e janeiro de 2026, segundo o gabinete de Moraes. Esta é a primeira prisão divulgada na investigação sobre o vazamento de dados de integrantes do STF e seus familiares.

Defesa Alega Violação de Prerrogativas

O advogado Eric Cwajgenbaum, que defende Washington Travassos de Azevedo, relatou à Folha que há uma semana tenta obter acesso à decisão que decretou a prisão preventiva de seu cliente, bem como às ordens de busca e apreensão e de uso de tornozeleira eletrônica. Ele afirma que seus requerimentos não foram respondidos.

“Uma semana se passou sem que nenhum requerimento de acesso tenha sido respondido. O gabinete do ministro informou por email que não há disponibilidade de data para despachar e nem mesmo a decisão que decretou a prisão preventiva foi exibida”, declarou o advogado, destacando a gravidade das supostas violações de prerrogativas profissionais.

O gabinete de Moraes não comentou as alegações sobre a restrição de acesso à decisão para a defesa.

O Rastro do Contador e o Alvo Principal

O contador foi alvo de busca e apreensão no início de março e, no dia 6, prestou seu primeiro depoimento à Polícia Federal, optando por permanecer em silêncio e saindo com uma tornozeleira eletrônica por ordem de Moraes. Uma semana depois, foi preso e, em novo depoimento, detalhou sua participação no esquema e indicou o destinatário das informações obtidas.

Entre os documentos obtidos ilegalmente estavam dados fiscais da advogada Viviane de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Ela está no centro de uma crise no STF após a divulgação de informações sobre seu contrato com o Banco Master, de Daniel Vorcaro, que está preso e negocia delação premiada.

A ordem de Moraes determinava que o contador fosse levado a um presídio federal em Brasília, mas ele foi detido em unidades no Rio de Janeiro, sendo posteriormente transferido para Bangu 8. A investigação foi iniciada após o próprio ministro determinar que a Receita Federal rastreasse em seus sistemas possíveis quebras de sigilo de dados fiscais de cerca de cem pessoas, incluindo ministros do STF e seus familiares.

O Fisco identificou acessos irregulares, o que levou a operações contra suspeitos, incluindo um servidor do Serpro, técnicos e até um vigilante da Receita. Uma nota do STF na época informou sobre um “bloco de acessos cuja análise, pelas áreas responsáveis, não identificou justificativa funcional”.