O que é o Conselho da Paz de Trump e por que gera controvérsia em Davos
Donald Trump oficializou nesta quinta-feira (22) a criação do “Conselho da Paz” em cerimônia no Fórum Econômico de Davos. O órgão, que visa atuar na manutenção da paz e reconstrução da Faixa de Gaza, já convidou lideranças de cerca de 60 países, gerando apreensão na comunidade internacional sobre um possível enfraquecimento da ONU.
A iniciativa, prevista na segunda fase de um acordo de paz mediado pelos EUA e assinado por Israel e Hamas em outubro passado, tem como objetivo assessorar um comitê responsável pela administração provisória de Gaza. A Casa Branca declarou que a entidade “ajudará a apoiar uma governança eficaz e a prestação de serviços de alto nível que promovam a paz, a estabilidade e a prosperidade do povo de Gaza”.
No entanto, a proposta é vista com ceticismo por diplomatas e analistas. Conforme informações obtidas pela agência Reuters, o rascunho do estatuto do conselho critica a lentidão e ineficácia de organismos internacionais atuais, defendendo a necessidade de uma abordagem mais ágil. A comunidade internacional teme que o Conselho da Paz funcione como uma “ONU paralela”, concentrando poder nas mãos de uma única liderança e prejudicando o papel da Organização das Nações Unidas.
Estrutura e Poderes do Novo Conselho
O Conselho da Paz prevê que Donald Trump terá um mandato vitalício como presidente, com amplos poderes. Países que desejarem um assento permanente no órgão precisarão desembolsar US$ 1 bilhão, valor que será administrado diretamente pelo presidente dos EUA. A estrutura proposta concentra um poder considerável na liderança americana, levantando questões sobre a equidade e representatividade do conselho.
De acordo com o projeto de estatuto, os membros cumprirão mandatos de três anos, renováveis pelo presidente. Contudo, essa limitação temporal não se aplicaria aos membros que contribuírem com mais de US$ 1 bilhão no primeiro ano, garantindo assim uma permanência fixa e influente.
Membros Fundadores e Convidados em Davos
A Casa Branca divulgou os nomes de sete membros fundadores nomeados por Trump: Marco Rubio, Tony Blair, Steve Witkoff, Jared Kushner, Ajay Banga, Marc Rowan e Robert Gabriel. O presidente americano também designou o major-general Jasper Jeffers para dirigir a Força Internacional de Estabilização (ISF) em Gaza.
Até o momento, 25 países aceitaram o convite para integrar o Conselho da Paz, incluindo Israel, Argentina, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito e Turquia. Donald Trump afirmou que Vladimir Putin aceitou o convite, mas o Kremlin indicou que ainda estuda a proposta. Por outro lado, Noruega, Suécia e Itália recusaram a participação, enquanto Brasil, Rússia, China, França e Reino Unido ainda avaliam a proposta.
O Dilema de Lula e a Ausência Palestina
O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, convidado para integrar o conselho, ainda não respondeu. Sua posição crítica às operações militares de Israel em Gaza e defesa de um Estado palestino criam um cenário delicado. Aceitar o convite pode gerar cobranças por coerência, enquanto a recusa pode desagradar o presidente americano e afetar relações bilaterais.
Um ponto de grande preocupação é a ausência de participação palestina clara no conselho. Diplomatas e analistas questionam a efetividade de um órgão voltado para Gaza que não inclua os próprios palestinos em sua composição, levantando dúvidas sobre os reais interesses e o papel dos mais afetados pela situação.
Críticas e Receios Internacionais
Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV, aponta que a estrutura proposta por Trump reúne falhas e concentra poder excessivo na liderança dos EUA. A crítica velada da ONU no estatuto do conselho, que sugere a necessidade de “um organismo internacional de consolidação da paz mais ágil e eficaz”, reforça o temor de que o novo órgão possa minar a autoridade da Organização das Nações Unidas.
A falta de clareza sobre os objetivos a longo prazo e a governança do Conselho da Paz, somada à concentração de poder e à ausência de representantes palestinos, alimenta a desconfiança da comunidade internacional. A iniciativa de Trump em Davos, portanto, não se trata apenas de uma proposta para Gaza, mas de um potencial divisor de águas nas relações diplomáticas globais e na arquitetura da segurança internacional.