Comerciantes do Irã se voltam contra clérigos em meio a crise econômica e sanções severas.
A classe de comerciantes, que historicamente sustentou a Revolução Islâmica de 1979, agora se encontra em conflito direto com a liderança clerical no Irã. A frustração crescente com a deterioração econômica e a perda de influência política e econômica tem alimentado uma onda de protestos contra o governo.
Pequenos lojistas e grandes atacadistas relatam dificuldades em importar produtos devido às sanções impostas pelos Estados Unidos e ao controle da economia pela Guarda Revolucionária. A elite militar, beneficiada pelas sanções que isolaram o Irã do sistema financeiro global, expandiu seu poder econômico, controlando vastos setores, do petróleo à construção.
As manifestações, que eclodiram no final de dezembro no Grande Bazar de Teerã, rapidamente ganharam contornos políticos, desafiando a própria legitimidade da República Islâmica. A queda acentuada do valor do rial, que perdeu quase metade de seu valor em relação ao dólar em 2025, e a inflação oficial de 42,5% em dezembro, são os estopins para o descontentamento popular.
A ascensão da Guarda Revolucionária e o controle econômico
Desde a década de 1980, após a guerra Irã-Iraque, a Guarda Revolucionária tem consolidado sua influência econômica no país. Com o apoio irrestrito do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e aproveitando as oportunidades criadas pelas sanções ocidentais, o grupo passou a controlar setores vitais da economia iraniana.
O controle se estende desde a exploração do petróleo, com uma frota clandestina de navios-tanque transportando petróleo sancionado, até empresas de fachada que facilitam as vendas, principalmente para a China. A falta de transparência sobre os fundos gerados por essas operações levanta sérias questões.
Sanções e má gestão agravam a crise
A combinação de sanções internacionais e o vasto império econômico da Guarda Revolucionária limitou severamente a capacidade do governo em mitigar a crise econômica. Analistas como Saeed Laylaz, baseado em Teerã, apontam que o governo perdeu o controle da situação.
A volatilidade dos preços, mais do que a inflação em si, paralisa os comerciantes, que se veem incapazes de planejar suas atividades. As disparidades econômicas entre a população comum e a elite clerical e de segurança, somadas à má administração e corrupção, alimentam o descontentamento geral.
O regime recorre à força para conter os protestos
Apesar do reconhecimento das dificuldades econômicas, o governo iraniano culpa seus rivais históricos, Estados Unidos e Israel, por fomentar a agitação. O establishment clerical tem se apoiado na Guarda Revolucionária e em suas forças paramilitares, como os Basij, para reprimir violentamente os protestos.
O grupo de direitos humanos HRANA, sediado nos EUA, relatou a morte de 544 pessoas, incluindo 496 manifestantes e 48 membros das forças de segurança, desde o início dos protestos em 28 de dezembro. Além disso, 10.681 pessoas foram presas. As autoridades iranianas não divulgam o número de vítimas, mas afirmam que muitos membros das forças de segurança foram mortos por “terroristas e desordeiros” ligados a inimigos estrangeiros.
A elite não pode ser questionada
Um alto funcionário iraniano, que pediu anonimato, declarou que “Ninguém sabe quanto do dinheiro do petróleo que os Guardas recebem com a venda do petróleo do Irã retorna ao país… eles são poderosos demais para serem questionados sobre isso”. Essa declaração evidencia a falta de controle do governo sobre as finanças geradas pela Guarda Revolucionária.
Mesmo durante a presidência de Hassan Rouhani, entre 2013 e 2021, as tentativas de restringir o poder econômico da Guarda Revolucionária foram frustradas. O regime, ciente da necessidade de manter a ordem política diante de ameaças internas e externas, parece relutante em confrontar a influência econômica da Guarda.