Nova orientação médica americana sugere iniciar tratamento para colesterol alto mais cedo, a partir dos 30 anos, para reduzir riscos de doenças cardiovasculares futuras.

Milhões de adultos podem precisar considerar o início do tratamento medicamentoso para redução do colesterol mais cedo na vida. Uma nova diretriz médica, divulgada pelo Colégio Americano de Cardiologia e pela Associação Americana do Coração, em conjunto com outras nove organizações, enfatiza a importância de tratar o colesterol alto precocemente.

A recomendação visa diminuir significativamente o risco de ataque cardíaco e derrame ao longo da vida. A mensagem central do guia de 123 páginas é clara: não se deve esperar muito tempo para agir contra o colesterol elevado.

Essas mudanças nas recomendações médicas podem impactar a saúde cardiovascular de milhões de pessoas, incentivando uma abordagem preventiva mais proativa. Conforme divulgado pela nova orientação médica, a avaliação de risco agora considera projeções de 30 anos, em contraste com a prática anterior focada em riscos de 10 anos.

Início do Tratamento: Aos 30 Anos com Colesterol LDL Elevado

A terapia com estatinas, aliada a mudanças no estilo de vida como dieta e exercícios, é agora recomendada para adultos a partir dos 30 anos. Os critérios incluem ter um nível de colesterol LDL (lipoproteína de baixa densidade) de 160 miligramas por decilitro ou superior, um histórico familiar forte de doença cardíaca prematura, ou um risco de 30 anos para desenvolver doença cardiovascular.

A Dra. Jennifer Haythe, do NewYork-Presbyterian/Columbia University Irving Medical Center, destaca a mudança de paradigma. “Nossa prática padrão tem sido avaliar o risco de 10 anos, e estatisticamente isso será baixo para uma pessoa na casa dos 30 anos. Mas agora vemos uma mudança para projeções de risco de 30 anos”, explica.

“Os benefícios potenciais de começar agentes redutores de lipídios em pacientes mais jovens são reais, já que existem dados de estudos bem fundamentados mostrando que uma maior duração de exposição reduzida ao LDL se traduz em menos acúmulo de placas”, complementa Haythe.

Milhões de Pessoas Podem Ser Elegíveis para a Terapia com Estatinas

Nos Estados Unidos, estima-se que existam cerca de 65 a 70 milhões de pessoas entre 30 e 44 anos. Mesmo que uma pequena fração desses indivíduos apresente um LDL maior que 160, o número de pessoas potencialmente qualificadas sob os novos critérios pode chegar a milhões, considerando o risco mais alto projetado em 30 anos.

As estatinas, medicamentos amplamente prescritos, atuam reduzindo o colesterol LDL, substância que pode se acumular nas artérias com o tempo, formando placas. Para adultos com risco limítrofe ou intermediário, entre 30 e 79 anos, que iniciam o uso de estatinas, a diretriz atualizada sugere reduzir o LDL para menos de 100 miligramas por decilitro de sangue.

Para aqueles considerados de maior risco, a meta de LDL é ainda mais rigorosa, visando níveis inferiores a 55 miligramas por decilitro. Essa abordagem agressiva busca prevenir o primeiro evento cardiovascular grave.

Risco de 30 Anos: Uma Nova Perspectiva na Avaliação Cardiovascular

Drs. Pam Morris e Roger Blumenthal, autores da diretriz, afirmam que muitos adultos com baixo risco em 10 anos, mas com risco elevado em 30 anos, já se enquadram em outras indicações para terapia com estatinas. No entanto, a inclusão do critério de risco de 30 anos pode estender a consideração para terapia medicamentosa a vários milhões de americanos adicionais.

É crucial notar que as estimativas de risco são ferramentas para identificar pacientes potencialmente elegíveis. As decisões finais de tratamento envolvem a análise de fatores específicos de cada paciente e seus objetivos pessoais de saúde preventiva, em uma discussão colaborativa entre médico e paciente.

Essa nova diretriz reflete um corpo crescente de pesquisas que associam a redução da exposição ao longo da vida a lipídios e lipoproteínas formadoras de placas a melhores resultados cardiovasculares a longo prazo. A calculadora PREVENT (Predicting Risk of Cardiovascular Disease EVENTs) da Associação Americana do Coração é recomendada para essa avaliação.

O Caso de Gigi Gari Campos: Uma Experiência Pessoal Marcante

Gigi Gari Campos, uma defensora voluntária da Associação Americana do Coração, compartilha sua experiência. Ela acredita que iniciar o tratamento para redução do colesterol mais cedo poderia ter evitado sua internação hospitalar e a parada cardíaca que quase lhe custou a vida, ocorrida no início de seus 30 anos.

Campos, que possui hipercolesterolemia familiar, um distúrbio genético que causa níveis elevados de LDL desde o nascimento, relatou que seus médicos hesitavam em iniciar o tratamento com estatinas devido à sua idade e ao fato de estar em idade fértil. A recomendação era adiar o início do tratamento após ter filhos.

Apesar das recomendações, Campos, que não planejava ter filhos, buscou o tratamento. Após iniciar as estatinas, seus níveis de colesterol, embora ainda altos, começaram a diminuir. Contudo, aos 34 anos, ela sofreu um ataque cardíaco, seguido por uma parada cardíaca durante um procedimento cardíaco.

“Estar naquela cama na UTI, depois de ter meu ataque cardíaco e ver todos os meus entes queridos ao meu redor foi muito difícil, porque você percebe que não está neste mundo apenas por si mesmo. Você está aqui por todos eles”, relata Campos, que hoje tem seus níveis de colesterol total abaixo de 100 mg/dL e LDL na casa dos 20 mg/dL, vivendo uma vida plena.

Benefícios da Intervenção Precoce e Redução do Risco ao Longo da Vida

O Dr. Steven Nissen, da Cleveland Clinic, ressalta a importância da mudança de foco para o risco ao longo da vida. “O colesterol LDL médio ao longo da sua vida é um dos indicadores mais fortes de se você vai ter um ataque cardíaco, derrame ou morte súbita”, afirma Nissen.

Iniciar o tratamento mais cedo pode significar a necessidade de doses menores de estatina, minimizando potenciais efeitos colaterais como dor muscular ou danos ao fígado, que podem ser mais comuns com doses elevadas. “Se você começar cedo, pode não precisar tratar tão intensivamente”, explica Nissen.

A experiência de Campos reforça a mensagem da nova diretriz: a educação sobre os níveis de colesterol e as opções de tratamento é fundamental. “O mais importante é se educar e saber que, quaisquer que sejam as opções de tratamento que você escolha, se você não atingir esses níveis mais baixos, você está aumentando sua chance de acabar tendo um evento cardíaco”, conclui Campos.