China quer reduzir dependência de alimentos importados, impactando o agro brasileiro e o mercado de soja
A China, maior parceira comercial do agronegócio brasileiro, intensifica sua estratégia de segurança alimentar com o 15º Plano Quinquenal, que abrange o período de 2026 a 2030. O objetivo é claro: aumentar a produção interna de alimentos e diminuir a dependência de importações, especialmente de produtos como soja, milho e carne, onde o Brasil é um fornecedor crucial.
Essa política, ecoada pelo presidente Xi Jinping com a frase “A tigela de arroz do povo chinês tem que estar firme nas próprias mãos, cheia principalmente de comida chinesa”, sinaliza um movimento de adaptação para o Brasil. Embora o cenário não aponte para um fim abrupto das exportações, exige estratégias de valor agregado e diversificação de mercados.
Especialistas consultados pelo g1 avaliam que, apesar dos esforços chineses, a limitação de terras aráveis e recursos hídricos no país asiático garante a relevância do Brasil como fornecedor. Acompanhe os detalhes dessa nova estratégia chinesa e suas implicações para o agronegócio brasileiro.
Metas Chinesas de Produção e o Impacto no Brasil
O 15º Plano Quinquenal chinês estabelece metas ambiciosas para a produção interna de alimentos. Entre os objetivos, destaca-se o aumento da capacidade de produção anual de grãos para 725 milhões de toneladas até 2030 e a elevação da autossuficiência em carne bovina e ovina para 85%. O plano também visa reduzir a dependência de farelo de soja na ração animal, de cerca de 14% para menos de 10% até 2030.
Essas metas já começam a se refletir no mercado. As cotas de importação de carne bovina impostas pela China neste ano, por exemplo, são parte desse movimento para fortalecer a indústria doméstica. O Brasil, como maior exportador de soja para a China, com mais de 70% do volume importado em 2023 originário do país, sente os primeiros efeitos, especialmente na exportação de milho, que sofreu queda de 20,8% em valor no ano passado.
A consultoria Destino China, que facilita negócios com o país asiático, sugere que o foco para o Brasil deve ser em “vender a melhor tonelada”, agregando valor aos produtos e saindo da commodity pura para cortes premium e produtos processados. A diversificação de destinos de exportação também é apontada como fundamental para não ficar refém de um único comprador.
Desafios Chineses e a Oportunidade Brasileira
Apesar do território extenso, a China enfrenta limitações geográficas e hídricas que dificultam a autossuficiência total em alimentos. A maior parte do país é composta por regiões montanhosas, áridas ou desérticas, e o acesso à água doce é restrito. Por isso, os planos chineses se concentram em aumentar a produtividade através de tecnologia, como melhoramento genético de sementes e maquinário avançado.
Larissa Wachholz, sócia da Vallya Associados, ressalta que a China tem uma capacidade notável de cumprir suas metas quando investe recursos tecnológicos, educacionais e financeiros. No entanto, a demanda chinesa por carne bovina, que consome perto de 11 a 12 milhões de toneladas anualmente e produz cerca de 7,8 milhões, gera um déficit estrutural que deve chegar a 4 milhões de toneladas por ano até 2032, segundo a OCDE.
Essa lacuna estrutural significa que, embora a China administre o ritmo das importações para proteger seus produtores, a dependência externa em produtos como carne bovina e soja persistirá. O Brasil, por sua vez, já abriu mais de 200 novos mercados em 2025, mostrando um esforço de diversificação.
Adaptação e Novos Mercados para o Agronegócio Nacional
O agronegócio brasileiro precisa se adaptar a essa nova realidade chinesa, focando em estratégias que agreguem valor e explorem novos mercados. A presença de empresas brasileiras na China também deve ser ampliada para um acompanhamento mais próximo das mudanças regulatórias, tecnológicas e comerciais.
Além disso, o Brasil pode explorar novas oportunidades em setores como a produção de combustíveis sustentáveis para aviação (SAF) e transporte marítimo, que demandarão matérias-primas agrícolas. A soja e o milho podem encontrar novos mercados de maior valor agregado, reduzindo a dependência da exportação de grãos.
Apesar das mudanças, a relação comercial entre Brasil e China permanece forte, com investimentos chineses em logística no Brasil, como a expansão de terminais no Porto de Santos e estudos para a ferrovia bioceânica. O comércio agrícola já ultrapassa os US$ 100 bilhões anuais, indicando que a importância do Brasil como fornecedor se mantém, mas com exigências cada vez maiores por parte da China.