Café, mesmo sem cafeína, pode ser um aliado do eixo intestino-cérebro, influenciando humor, memória e sono.
A bebida, conhecida por seus efeitos energizantes, agora demonstra ter um papel mais profundo na nossa saúde. Uma pesquisa publicada na revista Nature Communications sugere que o café, incluindo sua versão descafeinada, pode alterar positivamente o microbioma intestinal.
Essa influência se traduz em benefícios para o humor, a memória, a qualidade do sono e a cognição geral, indicando uma conexão mais forte entre o que comemos e bebemos e o funcionamento do nosso cérebro.
Os achados reforçam a crescente compreensão sobre o eixo intestino-cérebro, uma via de comunicação bidirecional que afeta diretamente nosso bem-estar físico e mental. Conforme informação divulgada pela Agência Einstein, os resultados apontam que não é apenas a cafeína a responsável por esses efeitos.
Compostos Bioativos e a Microbiota Intestinal
O estudo avaliou 62 adultos saudáveis, dividindo-os entre consumidores habituais de café e não consumidores. A pesquisa analisou diversos aspectos, como humor, função cognitiva, níveis de estresse e a composição da microbiota intestinal. As análises incluíram metabólitos encontrados em amostras de fezes e urina.
Após um período de abstinência, os consumidores de café foram divididos em grupos que voltaram a consumir café com cafeína ou descafeinado. Os resultados foram notáveis: tanto o café tradicional quanto o descafeinado foram associados à melhora do humor, redução do estresse e diminuição da impulsividade.
O café com cafeína mostrou efeitos adicionais na atenção e na ansiedade, enquanto a versão descafeinada se destacou por melhorar a memória, o sono e até a atividade física. O nutrólogo Diogo Toledo, do Einstein Hospital Israelita, destaca que o café possui centenas de compostos bioativos além da cafeína, especialmente polifenóis e antioxidantes, que contribuem para esses efeitos.
A Conexão Intestino-Cérebro em Evidência
Já se sabe que o intestino desempenha um papel crucial na produção de neurotransmissores e substâncias inflamatórias que impactam o humor, a memória, o sono e a cognição. Essa complexa “conversa” ocorre através do sistema nervoso, do sistema imunológico e das bactérias intestinais.
O estudo identificou mudanças significativas na microbiota intestinal de consumidores de café, com aumento de bactérias associadas a efeitos positivos para a saúde. Durante a interrupção do consumo, foram observadas alterações em metabólitos ligados ao funcionamento cerebral e ao metabolismo.
Esses achados reforçam a ideia de que o microbioma intestinal é dinâmico e responde rapidamente à dieta. “Há cada vez mais evidências mostrando que o microbioma intestinal é extremamente dinâmico e responde rapidamente ao que a pessoa come e bebe”, afirma o nutrólogo.
Limitações do Estudo e Recomendações
É importante notar que os autores do estudo apontam algumas limitações, como o tamanho da amostra e o uso exclusivo de café instantâneo. Diferentes métodos de preparo do café, como espresso, coado ou prensa francesa, podem alterar a concentração de cafeína e outros compostos bioativos.
Portanto, não é possível afirmar com certeza que todos os tipos de café terão exatamente os mesmos efeitos sobre a microbiota e a saúde cerebral. Diretrizes internacionais consideram seguro o consumo de até 400 mg de cafeína por dia, o equivalente a cerca de três a quatro xícaras de café.
No entanto, a quantidade ideal varia individualmente, influenciada por fatores genéticos e pela velocidade de metabolização da cafeína. A pesquisa, publicada originalmente pela Agência Einstein, abre novas perspectivas sobre os benefícios do café para a saúde integral.