Manaus (AM), Se a BR-319 fosse construída, talvez Eduardo Braga e Omar Aziz perdessem o palco preferido para suas encenações políticas. A estrada que deveria ligar Manaus a Porto Velho já virou patrimônio imaterial da politicagem amazonense. Todo ano é a mesma ladainha: promessas, discursos inflamados, notas de repúdio, e no fim, nada além de poeira e lama no meio da selva.

Eduardo Braga posa de indignado a cada veto presidencial, como se fosse a primeira vez. Faz cara de defensor do povo, mas, nos bastidores, seu alinhamento com o governo Lula sempre fala mais alto. Omar Aziz não fica atrás: ensaia falas firmes, critica de leve, mas no momento decisivo, suaviza a voz para não desagradar ao Planalto. É o clássico jogo do “finge que briga, mas ajuda”, tudo para manter as portas abertas em Brasília.

O governo Lula, por sua vez, sabe que tem nesses dois senadores aliados de conveniência. Lula veta a BR-319 sem pestanejar, usa o argumento ambiental como escudo, e deixa Braga e Aziz soltos para fazer teatro em cima do problema. E funciona: eles voltam para Manaus, fingem indignação em entrevistas, alimentam o sonho do asfalto e mantêm o assunto vivo, porque morto não renderia voto.

A verdade é que a BR-319 nunca sai do papel porque se tornou moeda de troca, palco e palanque. Braga e Aziz se promovem com a promessa de lutar pela estrada, Lula reforça sua imagem de protetor da floresta, e a população do Amazonas continua presa ao isolamento. O roteiro não muda: todo ano, uma nova temporada da novela da BR-319 é lançada, sempre com os mesmos protagonistas, sempre com o mesmo final.

No fim das contas, a estrada não anda porque para Eduardo Braga e Omar Aziz vale muito mais como discurso do que como realidade. É a velha jogada da política: transformar o problema em ativo eleitoral. E Lula, com seu veto, dá o empurrão necessário para que o espetáculo continue. Enquanto isso, o povo segue na arquibancada, assistindo a esse teatro com ingresso caro e sem direito a vaiar.