BR-319: A Luta por Asfalto na Amazônia e a Visita de Lula a um Trecho Emblemático
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inspecionou, na última terça-feira (26 de maio de 2026), as obras no chamado trecho Charlie da BR-319. Esta rodovia, que conecta Manaus (AM) a Porto Velho (RO), é um símbolo de longa data das dificuldades de infraestrutura na região amazônica.
Inaugurada em 1972, a BR-319 ainda possui extensos trechos sem pavimentação, sendo palco de complexas disputas judiciais e ambientais que historicamente têm retardado sua conclusão. A visita presidencial ocorre em um momento crucial para o futuro da estrada.
O presidente Lula assegurou que as intervenções na BR-319 serão realizadas com o máximo rigor ambiental, reconhecendo a sensibilidade da área amazônica. A declaração foi feita após meses de discussões sobre os mecanismos de segurança ambiental mais eficazes para a obra, conforme informações divulgadas pelo portal G1.
Desafios Históricos e o Gargalo da BR-319
A construção da BR-319, essencial para ligar Manaus ao restante do país por via terrestre, começou durante o governo Costa e Silva (1967-1969), sendo concluída em 1972. O processo de asfaltamento teve início em 2001, com a pavimentação de 58 km a partir de Porto Velho e 100 km a partir de Manaus.
Com aproximadamente 885 km de extensão, a BR-319 é a principal via terrestre que conecta Manaus à malha rodoviária nacional. O maior obstáculo concentra-se no chamado “trecho do meio”, que abrange os quilômetros 250 a 655. Essa seção atravessa uma área de preservação da floresta amazônica, gerando forte resistência de ambientalistas, pesquisadores e órgãos de controle.
É justamente nesse trecho que se manifestam os maiores problemas de trafegabilidade. Durante o período chuvoso, a estrada se transforma em lamaçal, com veículos frequentemente atolando e bloqueando o trânsito, evidenciando a urgência da pavimentação.
Impasse no Governo e a Busca por Solução
Desde o início do atual governo, a área de infraestrutura tem defendido o asfaltamento da BR-319 como uma prioridade. Em 2024, o então ministro dos Transportes, Renan Filho, destacou a importância da obra, lembrando a crise de oxigênio em Manaus durante a pandemia, que, segundo ele, também expôs a necessidade de melhorias no transporte.
Contudo, a pavimentação enfrentou resistência do Ministério do Meio Ambiente (MMA), liderado por Marina Silva. A tensão se tornou evidente em 2023, quando um grupo de trabalho sobre a BR-319 no Novo PAC foi criado sem a inclusão do Ibama ou do MMA. A área ambiental passou a exigir medidas rigorosas para conter o desmatamento, a grilagem e a abertura de ramais ilegais no entorno da rodovia.
Acordo Ministerial e Avanço nas Obras
A partir do fim de 2024, o presidente Lula passou a defender publicamente a obra, impondo como condição a adoção de salvaguardas ambientais. Em setembro daquele ano, ele afirmou que o governo “terminaria” a rodovia com “responsabilidade”, especialmente em um período de seca que afetava a navegação fluvial.
O impasse ministerial foi resolvido em julho de 2025, com a promoção de um acordo entre os ministérios dos Transportes e do Meio Ambiente. Esse pacto resultou no “Plano 319”, que estabelece um cronograma de ações de proteção ambiental e desenvolvimento para as comunidades locais, ao mesmo tempo em que viabiliza o avanço das obras de pavimentação.
Em 2026, o governo buscou acelerar o licenciamento e a execução. Em 13 de abril, o DNIT publicou editais para melhorias no trecho entre os km 250,7 e 590,1 da BR-319. Paralelamente, foram contratados projetos para restaurar o trecho entre Manaus e o km 198. O avanço se apoia em um dispositivo da nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental, que dispensa licenciamento para manutenção e melhoramento de rodovias existentes, um veto presidencial que foi derrubado pelo Congresso.