Por que a identidade latina é tão polêmica no Brasil, apesar da proximidade geográfica e cultural com vizinhos?
A discussão sobre se brasileiros são latinos ou não é um debate recorrente, especialmente nas redes sociais. Impulsionada por eventos como a celebração da latinidade por artistas como Bad Bunny, a questão levanta dúvidas sobre a nossa própria identidade nacional frente aos países vizinhos de língua espanhola.
Uma pesquisa recente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) revela um dado surpreendente: apenas 4% dos brasileiros se autodefinem como latino-americanos. A grande maioria, 83%, prefere a identidade estritamente brasileira, enquanto 10% se consideram ‘cidadãos do mundo’.
Essa dicotomia entre a percepção externa e a autoidentificação interna gera um debate complexo, que envolve história, política e a própria formação cultural do Brasil. Conforme aponta Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP e um dos responsáveis pelo estudo do Cebrap, essa falta de identificação latina profunda é uma questão estrutural.
A Origem do Termo ‘Latino-Americano’ e a Influência Francesa
O termo ‘latino-americano’ tem suas raízes no século XIX, com diferentes autores atribuindo sua popularização a nomes como o chileno Francisco Bilbao e o colombiano José María Torres Caicedo. No entanto, foi sob o impulso do imperador francês Napoleão III, em 1861, que o conceito ganhou força.
A França, buscando expandir sua esfera de influência, promoveu uma ideologia pan-latinista, baseada numa suposta afinidade cultural entre os povos de origem latina. O objetivo era unir essas nações sob a liderança francesa e, ao mesmo tempo, contrapor o crescente poderio dos Estados Unidos. Essa tentativa, no entanto, foi em grande parte rejeitada pelos países da região.
O Papel dos Estados Unidos e a Definição de ‘Latino’
Nos Estados Unidos, a definição de ‘latino’ seguiu um caminho distinto. O termo passou a ser utilizado oficialmente pelo Censo para classificar indivíduos de origem ou cultura de países de língua espanhola. Uma lei de 1976 estabeleceu a coleta de dados sobre ‘americanos de origem ou descendência espanhola’, consolidando essa categorização.
Com as revisões feitas pelo Escritório de Administração e Orçamento dos EUA, a categoria ‘hispânico ou latino’ manteve a exclusão de brasileiros, pois a definição se restringe a países de ‘cultura ou origem espanhola’. Essa classificação, que tem sido criticada por ativistas por promover um apagamento de identidades, coloca brasileiros nos EUA em um ‘limbo estatístico’, geralmente classificados como ‘alguma outra raça’ (Some Other Race).
A Identidade Brasileira: Autossuficiência e Vínculos Históricos
A percepção de singularidade brasileira, como apontam alguns comentários em redes sociais, reflete uma autossuficiência em nossa ‘brasilidade’. Feliciano de Sá Guimarães explica que, embora não rejeitemos a ideia de América Latina, ela não é parte central de nossa identidade.
Essa diferença na autoidentificação tem raízes históricas. O processo de independência do Brasil, diferente das lutas sangrentas dos países hispânicos, manteve um vínculo mais forte com Portugal. Isso levou os brasileiros a se verem mais próximos da Europa, como um ‘país-continente com raízes europeias’, em contraste com a busca por soberania e identidade distinta dos vizinhos.
O Brasil e a América Latina: Uma Relação Estratégica e Conveniente
A relação do Brasil com a América Latina é marcada por uma ambiguidade estratégica. Embora façamos parte da comunidade latino-americana, nossa identificação profunda com o termo é limitada. O Brasil, como aponta Guimarães, utiliza o ‘chapéu’ da América Latina conforme a conveniência, seja trocando-o por ‘América do Sul’, ‘Europa’ ou ‘Sul Global’, dependendo do contexto político e econômico.
João Carlos Corrêa, diretor cultural do Memorial da América Latina, lamenta que o Brasil, ao não se reconhecer plenamente como latino, perca a oportunidade de abraçar um ‘projeto político inacabado de libertação coletiva’, ao se colocar de fora de um mercado cultural e de um movimento identitário mais amplo.