Os Jogos que começam em Milão e Cortina revelam uma nova realidade, em que a tecnologia substitui a neve natural para manter competições no calendário. A dependência de máquinas cresce a cada edição, e os custos em recursos também aumentam.
Para garantir pistas e provas, organizadores planejam operações gigantescas de produção de neve, com grande impacto em água e infraestrutura. A mudança expõe riscos a sedes históricas e ao turismo de montanha.
O debate sobre sustentabilidade e futuro dos esportes de inverno volta ao centro, enquanto cidades e organizadores tentam conciliar tradição e limites ambientais.
conforme informação divulgada pelo Instituto Talanoa e pela Agência Brasil.
Como será a produção de neve em Milão-Cortina
Para viabilizar as provas, os organizadores vão produzir 2,4 milhões de metros cúbicos de neve artificial, operação que exige 946 milhões de litros de água. O volume equivale, segundo o levantamento, a transformar o estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, em um grande reservatório, com um terço do espaço cheio.
Foram instalados mais de 125 canhões de neve em locais como Bormio e Livigno, apoiados por grandes reservatórios de água em altitude. A produção depende de tecnologia, energia e logística complexa, além de condições climáticas que limitam a janela de operação.
Uma tendência crescente nos Jogos de Inverno
O uso de neve artificial domina as últimas edições. Em Sochi, em 2014, cerca de 80% da neve das competições foi produzida por máquinas. Em PyeongChang 2018, o índice chegou a 98%, e em Pequim 2022, 100% das competições ocorreram com neve artificial.
Para pesquisadores, esses números mostram uma mudança estrutural. O número de localidades climaticamente confiáveis para sediar os Jogos está encolhendo, e sem tecnologia muitos eventos seriam inviáveis.
Redução de locais confiáveis e projeções futuras
Entre 1981 e 2010, 87 locais eram considerados climaticamente confiáveis para sediar eventos de inverno. Nas projeções para a década de 2050, esse número cai para 52, e em 2080 pode chegar a apenas 46, mesmo em um cenário intermediário de redução de emissões de gases do efeito estufa.
Essa queda reduz opções para sedes tradicionais, aumenta custos de infraestrutura e concentra eventos em áreas que ainda dependem de intensa produção de neve artificial.
Impactos além do esporte
A redução da neve natural afeta todo o sistema hídrico e ecológico. A neve funciona como reservatório natural, liberando água gradualmente ao longo do ano. Menos neve significa menor vazão de rios, pressão sobre reservatórios e prejuízos ao turismo de montanha.
Observações por satélite mostram que a extensão do gelo marinho no Ártico permanece abaixo da média histórica. Em setembro de 2012, foi registrada a menor extensão já observada, 3,8 milhões de km2. Em 31 de dezembro de 2025, a área chegou a 12,45 milhões de km2, ainda inferior ao padrão do período 1991-2020.
Criados em 1924, nos Alpes franceses, os Jogos Olímpicos de Inverno nasceram da abundância de neve natural. Um século depois, os dados indicam que, sem máquinas, canhões de neve e grandes volumes de água, o evento simplesmente não aconteceria, e que a tradição consolidada está sendo remodelada pelas mudanças climáticas.
Em resumo, a dependência de neve artificial em Milão-Cortina 2026 ilustra uma transformação mais ampla, que combina tecnologia, consumo de água e escolhas sobre onde e como celebrar esportes que nasceram do frio e da montanha.