A indústria sombria da pornografia de câmera escondida na China expõe intimidade de casais desavisados em hotéis.
Um casal de Hong Kong, identificado como Eric e Emily, viveu um pesadelo ao descobrir que seus momentos íntimos em um hotel em Shenzhen, na China, foram gravados por uma câmera escondida e distribuídos em sites de pornografia.
O que começou com Eric navegando em um canal de redes sociais para consumir conteúdo adulto, transformou-se em um choque avassalador ao reconhecer a si mesmo e sua namorada em um vídeo.
As imagens, que mostravam o casal chegando ao quarto, desfazendo as malas e, posteriormente, em atos sexuais, haviam sido capturadas e disponibilizadas para milhares de desconhecidos, tornando-os vítimas de uma indústria ilegal e perturbadora. A descoberta, segundo informações divulgadas pela BBC, ocorreu três semanas após a estadia do casal.
A Proliferação da Pornografia Clandestina
A chamada “pornografia de câmera escondida” opera na China há pelo menos uma década, apesar de a produção e distribuição de material pornográfico serem ilegais no país. A situação é grave, com relatos de que o aplicativo de mensagens Telegram é amplamente utilizado para divulgar essas transmissões ao vivo e vídeos editados.
Ao longo de 18 meses de investigação, a BBC identificou seis sites e aplicativos diferentes promovidos no Telegram. Juntos, eles alegavam operar mais de 180 câmeras escondidas em quartos de hotel, transmitindo as atividades dos hóspedes em tempo real. Um dos agentes identificados, conhecido como “AKA”, cobrava cerca de R$ 330 por mês para acesso a transmissões ao vivo e bibliotecas de vídeos arquivados, que remontam a 2017.
A estimativa é que milhares de hóspedes possam ter sido filmados sem saber, com a imensa maioria provavelmente desconhecendo a invasão de privacidade. Os assinantes desses serviços chegam a comentar e julgar os atos sexuais dos casais filmados, com comentários frequentemente degradantes sobre as mulheres.
A Busca por Segurança em Meio ao Risco
Mesmo com novas regras implementadas pelo governo chinês em abril passado, exigindo que donos de hotéis verifiquem a presença de câmeras escondidas, o risco persiste. A facilidade em adquirir câmeras espiãs, mesmo com regulamentações, contribui para a continuidade do problema.
Em uma investigação, pesquisadores conseguiram rastrear uma câmera escondida até um quarto de hotel em Zhengzhou. A câmera, apontada para a cama, estava escondida na unidade de ventilação e conectada à rede elétrica. Um detector de câmeras escondidas, vendido como item de segurança, não emitiu nenhum alerta.
A desativação da câmera gerou comoção entre os assinantes, que lamentaram a perda da “melhor qualidade de som”, mas logo foram informados sobre a ativação de uma nova câmera em outro hotel, demonstrando a agilidade da operação.
Impacto Psicológico e Luta por Justiça
Eric e Emily, após a descoberta, passaram semanas sem se falar, com Emily devastada pelo medo de que o vídeo fosse visto por colegas e familiares. O casal relata viver traumatizado, usando chapéus em público e evitando hotéis.
A ONG RainLily, sediada em Hong Kong, auxilia vítimas a remover imagens íntimas da internet, mas enfrenta dificuldades, especialmente com o Telegram, que raramente responde aos pedidos de remoção. A organização critica a responsabilidade das empresas de tecnologia em combater a disseminação de conteúdo ilegal.
A BBC informou o Telegram sobre as atividades de AKA e “Brother Chun”, que supostamente lucravam com a exploração de hóspedes, mas a plataforma afirmou que “o compartilhamento de pornografia sem consentimento é explicitamente proibido” e que modera proativamente conteúdos prejudiciais. Após a apresentação das conclusões da investigação, as contas do Telegram usadas para divulgar o conteúdo pareciam ter sido excluídas, mas o site de transmissão ao vivo continua ativo.
Apesar das leis brasileiras considerarem crime a divulgação de pornografia sem consentimento, a indústria de câmeras escondidas em hotéis, como a investigada na China, expõe a vulnerabilidade de indivíduos e a complexidade no combate a crimes digitais transnacionais.