O romance entre a direita radical europeia e Donald Trump enfrenta uma crise, com líderes expressando distanciamento devido a políticas controversas e declarações polêmicas.
O que antes parecia uma aliança sólida entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e os partidos nacionalistas de direita da Europa, agora dá sinais de desgaste. Após celebrarem a ascensão de Trump à Casa Branca, muitos desses líderes europeus começam a se distanciar, preocupados com as repercussões de suas ações e retórica.
As tensões iniciais surgiram com a intervenção militar de Trump na Venezuela e suas ameaças de impor tarifas a países europeus que discordassem de seus planos sobre a Groenlândia. No entanto, foram as declarações de Trump minimizando a colaboração de aliados da OTAN na guerra do Afeganistão que pareceram ser a gota d’água para muitos.
Essa mudança de postura não é apenas uma questão de discordância política, mas também reflete um cálculo eleitoral. A associação com Trump, que antes era vista como um trunfo, pode estar se transformando em um fardo, especialmente em países onde a opinião pública demonstra crescente desconfiança em relação aos Estados Unidos. Conforme informação divulgada pela BBC News Mundo, o professor de direito europeu Alberto Alemanno alerta para um “efeito bumerangue”, onde a associação com Trump se torna uma desvantagem eleitoral.
A Groenlândia e a Venezuela: Pontos de Ruptura na Relação Transatlântica
A operação militar ordenada por Trump contra a Venezuela, que resultou na captura de Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, gerou as primeiras fissuras. Marine Le Pen, líder do Reagrupamento Nacional da França, embora condenando o regime venezuelano, ressaltou que “a soberania estatal nunca é negociável”. Essa declaração evidencia uma preocupação com a interferência externa, mesmo entre aliados ideológicos.
Semanas depois, as ameaças de Trump de impor novas tarifas a países europeus que se opusessem a seus planos de controle sobre a Groenlândia ampliaram o distanciamento. Nigel Farage, líder do Reform UK, descreveu a atitude como “um ato bastante hostil”, questionando a lógica de um presidente americano ameaçar aliados por conta de uma questão territorial.
O Efeito Bumerangue: Trump como Peso Eleitoral para Aliados Europeus
Especialistas apontam que a associação com Donald Trump pode estar se tornando um fator negativo para as perspectivas eleitorais de partidos de direita radical na Europa. Alberto Alemanno, professor de direito europeu, compara a situação com o que ocorreu no Canadá, onde o primeiro-ministro liberal Mark Carney venceu as eleições, em parte, por sua oposição à agenda de Trump.
“Os esforços de Trump para enfraquecer os aliados dos EUA […] os revitalizaram politicamente e os incentivaram a buscar maior autossuficiência”, afirma Alemanno. Ele exemplifica com a derrota de um membro do Partido Conservador canadense, Pierre Poilievre, que possuía laços com Trump, perdendo um assento parlamentar de longa data.
Dados Revelam Desconfiança Crescente em Relação aos EUA
Pesquisas de opinião pública em países como Alemanha e Reino Unido corroboram essa tendência de desconfiança. Na Alemanha, apenas 12% dos cidadãos apoiam as ações dos EUA na Venezuela e em relação à Groenlândia, e somente 15% veem os EUA como um parceiro confiável, segundo levantamento do instituto ARD-DeutschlandTrend.
No Reino Unido, 35% dos britânicos consideram os EUA “hostis”, e uma parcela significativa apoiaria sanções econômicas ou até mesmo uma resposta militar caso os EUA invadissem a Groenlândia, conforme dados da YouGov. Esses números indicam que a retórica de Trump pode estar alienando não apenas líderes, mas também o eleitorado.
Divisões na Direita Europeia e o Futuro da Aliança Transatlântica
Enquanto alguns líderes como Giorgia Meloni, Marine Le Pen e Nigel Farage se manifestam publicamente contra as ações de Trump, outros, como Viktor Orbán e Andrej Babiš, permanecem em silêncio. Essa divisão expõe as diferentes estratégias e prioridades dentro do espectro da direita radical europeia.
O cientista político Daniel Hegedüs sugere que “se Trump continuar representando uma ameaça à soberania dos países europeus, isso certamente dividirá a direita radical europeia”. Por outro lado, as ações de Trump também podem ter fortalecido a aliança franco-alemã, impulsionando a busca por “independência estratégica” da Europa em relação aos EUA.
Especialistas consultados pela BBC News Mundo consideram prematuro afirmar se o distanciamento é definitivo. “Por ora, isso parece mais um distanciamento tático do que uma ruptura estrutural”, avalia Brandon Bohrn, da Fundação Bertelsmann, “mas é cedo demais para conclusões definitivas”. O futuro da relação dependerá, em grande parte, dos próximos passos dos EUA em relação a questões sensíveis como a Groenlândia.