O fim do tratado New START entre EUA e Rússia, o último acordo nuclear entre as duas potências, marca o início de uma nova e perigosa era armamentista global, com a ascensão da China como fator crucial.
O mundo se encontra em um cenário inédito após o vencimento do tratado New START, que limitava a produção e o posicionamento de ogivas nucleares entre Estados Unidos e Rússia. Sem esse acordo, as maiores potências nucleares do planeta agora operam sem restrições, um fato que especialistas preveem como um catalisador para uma acelerada corrida armamentista nuclear global.
O New START, assinado em 2010, era o derradeiro pilar de controle de armas nucleares entre Washington e Moscou, estabelecendo limites para ogivas prontas para uso e regulamentando sua posse e posicionamento. Sua expiração, impulsionada pela crescente influência nuclear da China, sinaliza o fim da era de não proliferação pós-Guerra Fria.
Essa nova dinâmica de desconfiança e competição entre as potências nucleares abre caminho para uma corrida armamentista encabeçada por EUA, Rússia e China, com potencial para uma proliferação mundial de ogivas nos próximos meses, conforme alertam especialistas. Conforme informação divulgada pelo g1, o fim do tratado remove o “último freio institucional”, escancarando uma competição nuclear já em curso e alterando o panorama estratégico mundial.
A Ausência do “Último Freio” e a Nova Realidade Geopolítica
O professor de Relações Internacionais da UFF e pesquisador de Harvard, Vitelio Brustolin, explica que o New START “administrava” a rivalidade entre EUA e Rússia. Sem ele, ambos os lados precisarão operar sob o pressuposto do pior cenário para o planejamento de suas forças militares e nucleares. Apesar da importância do Tratado de Proliferação Nuclear (TNP), sua eficácia é questionada, especialmente com a China expandindo rapidamente seu arsenal, segundo Brustolin.
China: O Fator Determinante na Mudança de Paradigma
A ascensão da China como potência nuclear é apontada como o principal motivo para os Estados Unidos permitirem que o New START “morresse”. A estratégia americana agora foca na contenção de Pequim, considerada uma superpotência em ascensão. O ex-presidente Donald Trump defendia a inclusão da China em qualquer novo acordo de controle de armas, enquanto o presidente chinês Xi Jinping argumenta que o país não precisa ser incluído, dada a vantagem histórica de EUA e Rússia.
Este impasse aponta para o que o professor de Relações Internacionais da ESPM, Gunther Rudzit, descreve como a “3ª Era Nuclear”, caracterizada por um aumento descontrolado de arsenais e profunda desconfiança entre líderes mundiais.
Detalhes e Limites do Vencido New START
O tratado New START, firmado em 2010, estabelecia limites rigorosos para EUA e Rússia. Cada país poderia ter no máximo 1.550 ogivas nucleares prontas para uso, além de 700 meios de lançamento (mísseis balísticos intercontinentais, mísseis de submarinos e bombardeiros pesados). Também havia um teto de 800 armamentos lançadores e exigia que as ogivas russas e americanas mantivessem uma distância segura, com tempo mínimo de 30 minutos para atingir o outro país. O acordo também previa inspeções anuais, compartilhamento de dados e notificações prévias de lançamentos de mísseis.
Apesar de não ter sido integralmente cumprido nos últimos anos, o New START foi crucial para limitar arsenais. Dados do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri) de janeiro de 2025 indicavam que a Rússia possuía ao menos 5.429 ogivas e os EUA, ao menos 5.177. O Departamento de Estado americano reconheceu que o tratado reforçava a segurança nacional ao impor limites verificáveis às armas russas.
Expansão Chinesa e o Risco de Proliferação Global
A China, segundo o Sipri, produz cerca de 100 novas ogivas por ano desde 2023, expandindo seu arsenal para pelo menos 600 ogivas em janeiro de 2025. Especialistas preveem que Pequim busque atingir 1.000 mísseis com ogivas nucleares para se equiparar militarmente aos EUA. Essa expansão deve provocar uma reação americana, levando Moscou a também aumentar seu arsenal.
Até 2035, a China pode alcançar 1.500 ogivas nucleares, segundo o Sipri. O país também moderniza seu exército e construiu cerca de 350 silos para mísseis balísticos intercontinentais até 2025. A estratégia americana agora é “deter” a China, o que levou Pequim a prometer aprofundar laços com a Rússia em resposta.
A corrida armamentista não se limitará a EUA, Rússia e China. Países como Alemanha, Polônia, Ucrânia, Coreia do Sul e Japão já indicaram a possibilidade de recorrerem à energia nuclear como precaução. A aliança entre Arábia Saudita e Paquistão, permitindo a Riade acesso indireto a armas nucleares, é um exemplo dessa nova realidade, conforme Rudzit.
A Inteligência Artificial (IA) também se configura como um elemento central na modernização de arsenais. O desenvolvimento de mísseis hipersônicos exige respostas rápidas, aumentando o risco de armamentos serem colocados sob controle exclusivo da IA, um temor entre cientistas sobre a capacidade humana de reagir em tempo hábil.