Lula pode mudar estratégia para 2026: discurso “antissistema” mira mercado financeiro e bilionários
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estuda uma guinada em sua comunicação para a próxima campanha eleitoral. Em vez de manter o foco na ideia de “reconstrução” do país, que tem sido o lema de seu governo, o entorno do presidente avalia a adoção de um discurso “antissistema”, voltado principalmente contra o mercado financeiro e setores privilegiados da sociedade.
Essa mudança estratégica visa a criar um contraponto direto ao bolsonarismo, que frequentemente utiliza a expressão “sistema” para criticar elites políticas e judiciárias. Ao redefinir o “sistema” para incluir grandes operadores financeiros e grupos econômicos que se beneficiam de privilégios tributários, Lula busca atrair o eleitorado que se sente prejudicado por essas estruturas.
A proposta, que já encontra apoio em ministros como Sidôni Palmeira (Secretaria de Comunicação) e Guilherme Boulos (Secretaria Geral), também busca fortalecer a pauta de segurança pública, com investigações recentes como a operação Carbono Oculto servindo de exemplo. A informação foi divulgada por fontes próximas à articulação política do governo.
Disputa pela narrativa “antissistema”: quem representa o “sistema”?
A estratégia de Lula de adotar um discurso “antissistema” para 2026 implica uma disputa direta com a direita pela definição do que significa esse termo. Enquanto Jair Bolsonaro e seus aliados costumam associar o “sistema” a figuras políticas e instituições que consideram adversárias, a equipe de Lula pretende direcionar a crítica para os **grandes operadores do mercado financeiro e bilionários contrários à distribuição de renda**. Setores privilegiados e grupos econômicos que defendem benefícios tributários também entram no alvo.
Essa abordagem é vista como uma nova forma de propagar críticas à elite econômica, uma tônica presente nas falas de Lula há décadas. Ao mesmo tempo, a intenção é **enfraquecer os discursos de adversários que acusam o petista de ser parte desse “sistema”**. A resolução da executiva nacional do PT, que criticou o Banco Master sem usar a palavra “sistema”, reforça essa tendência ao associar escândalos financeiros à “corrupção e a promiscuidade entre parte do mercado e o crime organizado”.
Ações do governo e o “andar de cima”
A comunicação do governo Lula já vem sinalizando essa mudança. Em agosto passado, o slogan “União e Reconstrução” foi substituído por “Governo do Brasil, do lado do povo brasileiro”. A gestão tem investido em ações com apelo popular que afetam o que Lula chama de **”andar de cima”**, como a taxação de super-ricos e a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000. O ministro Guilherme Boulos defende que a direita “anda e sempre andou de mãos dadas” com os bancos e corporações, enquanto o governo se posiciona “ao lado da maioria do povo”.
A intenção é que, ainda no primeiro semestre de 2026, projetos como o fim da escala de trabalho 6×1 sejam avançados. Programas como Gás do Povo, Reforma Casa Brasil e a redução no custo da carteira de motorista também devem ser explorados para reforçar a mensagem de que o governo está ao lado da população mais carente. Lula escalou Boulos para divulgar essas ações em todo o país, como parte do programa “Governo do Brasil na Rua”.
Cautela e estratégia política
Nem todos concordam com a intensidade da abordagem “antissistema”. Ministros como Rui Costa (Casa Civil) e Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais), ambos do PT, recomendam cautela. Gleisi, em particular, busca minimizar atritos com representantes do setor privado no Congresso, embora não discorde da ideia em si. A estratégia de Lula, segundo informações de pessoas próximas à discussão, visa a apresentar um **novo projeto de país que enfrenta “adversidades” e “privilégios”**, como descrito em artigo de Sidôni Palmeira.
A direita, por outro lado, tem usado o discurso “antissistema” há tempos. Em 2022, a campanha de Bolsonaro veiculou um vídeo afirmando que o então presidente governava “contra o sistema”, associando-o à corrupção e a adversários políticos. O secretário de Comunicação do PT, Éden Valadares, contrapõe, afirmando que a direita e o bolsonarismo defendem o “sistema de privilégios dos poderosos”, enquanto o PT e Lula buscam a “tarifa zero” e a taxação dos super-ricos. A investigação do escândalo financeiro do Banco Master pela Polícia Federal deve ser mais um ponto explorado nesse discurso.