Mais de 3 milhões de novos documentos sobre Jeffrey Epstein foram divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA, trazendo à luz detalhes sobre suas conexões com figuras proeminentes, incluindo Donald Trump, e transações financeiras inesperadas envolvendo um brasileiro. A divulgação ocorre após o governo ter perdido um prazo legal para tornar públicos todos os arquivos relacionados ao caso.
A recente liberação de milhões de arquivos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos promete lançar novas luzes sobre as atividades do falecido bilionário Jeffrey Epstein. Os documentos, que somam mais de três milhões de páginas, incluem centenas de menções a Donald Trump, e-mails detalhados com uma figura britânica de alto escalão conhecida como “O Duque”, e até mesmo transações financeiras com um brasileiro.
Esta divulgação massiva acontece meses após o governo americano ter falhado em cumprir um prazo estipulado por lei para a publicação integral dos documentos. A expectativa é que os novos arquivos ofereçam um panorama mais completo sobre o círculo de Epstein, sua prisão e morte sob custódia, além de detalhes sobre a investigação de sua associada Ghislaine Maxwell.
Entre os destaques estão e-mails que sugerem uma relação próxima entre Epstein e a elite britânica, levantando questões sobre as interações e acordos realizados. A quantidade de informações e o teor das correspondências prometem gerar novas discussões e análises sobre o alcance da influência do bilionário. Conforme divulgado pelo Departamento de Justiça dos EUA.
Conexões Britânicas e “O Duque” em Destaque
Os novos documentos revelam uma proximidade surpreendente entre Epstein e membros da realeza britânica. E-mails trocados entre o bilionário e uma pessoa identificada como “O Duque”, amplamente acreditado ser o Príncipe Andrew, Duque de York, detalham planos para jantares em locais de prestígio como o Palácio de Buckingham. As correspondências, datadas de agosto de 2010, incluem ofertas para apresentar “O Duque” a uma mulher russa de 26 anos, com Epstein descrevendo-a como “inteligente, bonita, confiável” e garantindo que ela possuía os dados de contato do Duque.
Em uma das trocas de mensagens, “O Duque” expressa interesse em encontrar a mulher, perguntando se ela traria alguma mensagem de Epstein e solicitando seus dados de contato. Ele também questiona se Epstein possuía mais informações úteis sobre ela. Os e-mails, assinados com a letra “A” e uma possível assinatura de “Sua Alteza Real Duque de York KG”, não indicam qualquer irregularidade, mas o escrutínio sobre a amizade de Andrew com Epstein é antigo. O Príncipe Andrew tem consistentemente negado qualquer envolvimento em atividades ilícitas e afirmou não ter presenciado ou suspeitado de comportamentos que levariam à prisão de Epstein.
Brasileiro Recebe Milhares de Libras de Epstein
Os arquivos também expõem uma transação financeira entre Epstein e um brasileiro. Em 2009, Reinaldo Avila da Silva, marido do político britânico Peter Mandelson, recebeu 10.000 libras (aproximadamente R$ 72 mil na cotação atual) de Jeffrey Epstein. Em um e-mail enviado a Epstein, Avila da Silva detalha os custos de um curso de osteopatia e fornece seus dados bancários, agradecendo por qualquer ajuda. Epstein respondeu prometendo a transferência do valor.
Em outra correspondência, Lorde Peter Mandelson solicita hospedagem em uma das propriedades de Epstein. Esses e-mails foram trocados em junho de 2009, período em que Epstein cumpria pena por solicitar prostituição de uma menor. Mandelson, que foi nomeado embaixador do Reino Unido nos EUA em 2024, mas demitido após mensagens de apoio a Epstein virem à tona, já expressou arrependimento por sua amizade com o bilionário, afirmando que acreditou em suas mentiras e nunca presenciou irregularidades.
Trump e Alegações Não Verificadas
Donald Trump, que teve uma amizade com Epstein, alega que a relação se deteriorou há muitos anos e nega conhecimento sobre os crimes sexuais cometidos pelo bilionário. Os novos documentos incluem uma lista compilada pelo FBI com alegações contra Trump, provenientes de ligações anônimas feitas à linha de denúncias do Centro Nacional de Operações de Ameaças. Muitas dessas alegações, que incluem supostos abusos sexuais envolvendo Trump e Epstein, parecem basear-se em informações não verificadas e foram feitas sem provas concretas.
Tanto a Casa Branca quanto o Departamento de Justiça dos EUA refutaram as alegações mais recentes contra Trump. Em comunicado, o Departamento de Justiça afirmou que “alguns dos documentos contêm alegações falsas e sensacionalistas contra o presidente Trump que foram enviadas ao FBI pouco antes da eleição de 2020”. A pasta ressaltou que as acusações são infundadas e que, se tivessem qualquer credibilidade, já teriam sido utilizadas contra o ex-presidente.
Bill Gates e a Negação de Acusações
Um porta-voz de Bill Gates classificou como “absolutamente absurdas e completamente falsas” as alegações contidas nos arquivos mais recentes de Epstein, incluindo a sugestão de que Gates teria contraído uma doença sexualmente transmissível. Dois e-mails datados de julho de 2013, supostamente redigidos por Epstein, foram encontrados na mesma conta de e-mail, mas não está claro se foram enviados a Gates. Um deles, escrito como uma carta de demissão da Fundação Bill e Melinda Gates, menciona a necessidade de providenciar medicamentos para Gates “a fim de lidar com as consequências do sexo com garotas russas”.
O outro e-mail, dirigido a “caro Bill”, lamenta o fim da amizade e faz alegações sobre tentativas de Gates de encobrir uma infecção sexualmente transmissível. O porta-voz de Gates declarou que “essas alegações – de um mentiroso comprovadamente ressentido – são absolutamente absurdas e completamente falsas”, acrescentando que os documentos demonstram a frustração de Epstein e sua disposição em difamar Gates.
O Fim da Divulgação?
Ainda não está totalmente claro se esta é a última leva de documentos relacionados a Epstein a serem divulgados. O vice-procurador-geral Todd Blanche indicou que a divulgação atual “marca o fim de um processo muito amplo de identificação e revisão de documentos” por parte do Departamento de Justiça. No entanto, democratas argumentam que o departamento reteve cerca de dois milhões e meio de documentos sem justificativa adequada, levantando dúvidas sobre a transparência do processo.
O deputado democrata Roh Khanna expressou cautela, afirmando que continuará a pressionar pela liberação dos documentos retidos. A lei que rege a divulgação permite cortes apenas para proteger vítimas ou informações sob investigação, exigindo um resumo e justificativa legal para tais ações. Blanche afirmou que os cortes visam proteger vítimas e que centenas de funcionários trabalharam para garantir uma divulgação rápida, mas a incerteza sobre o fim da saga persiste, alimentando teorias de conspiração sobre a proteção de figuras poderosas ligadas a Epstein.