Minnesota: O Estado Democrata que Virou Campo de Batalha na Política Migratória de Trump

O estado de Minnesota, lar de uma população relativamente pequena de imigrantes sem documentos, transformou-se no palco principal da ofensiva migratória do ex-presidente Donald Trump. A escolha do estado para a maior mobilização de agentes federais nos Estados Unidos levanta questões sobre os motivos reais por trás dessa ação.

As operações, que começaram em dezembro e se intensificaram em janeiro, com o envio de mais de 2 mil agentes para Minneapolis, visam, segundo o governo, a deportação de imigrantes irregulares considerados criminosos. No entanto, a presença massiva de agentes do ICE e da Patrulha da Fronteira gerou controvérsia, especialmente após a morte de dois cidadãos americanos durante ações policiais.

Um relatório do Instituto de Políticas de Migração (MPI) de 2025 indica que Minnesota abriga apenas 0,7% dos imigrantes sem documentos do país. Essa desproporção levanta a questão: o que realmente motivou Trump a escolher este estado como epicentro de sua guerra contra a imigração? Conforme apurado pela BBC News Mundo, dois fatores principais se destacam: um escândalo de fraude em programas sociais e a acirrada tensão política entre o governo republicano e o estado democrata.

O Escândalo de Fraude e a Comunidade Somali em Foco

Um dos principais argumentos utilizados para justificar a operação em Minnesota está ligado a um escândalo de fraude em programas de assistência social que envolveu, em grande parte, a comunidade somali do estado, a maior dos Estados Unidos. Embora o escândalo tenha surgido há mais de cinco anos e levado a condenações, ele ressurgiu com força no final do ano passado.

Donald Trump atacou a comunidade somali, acusando-a de desviar bilhões de dólares em fundos públicos. A indignação pública aumentou após a viralização de um vídeo que supostamente mostrava creches administradas por somalis operando sem crianças, mas recebendo financiamento estatal. Um youtuber simpático a Trump, Nick Shirley, visitou algumas dessas creches e relatou que não havia ninguém ou nenhuma criança presente.

Três dias após a publicação do vídeo, a secretária de Segurança Nacional, Kristi Noem, anunciou uma grande investigação do ICE sobre a suposta fraude. Em 6 de janeiro, foi anunciada a “maior operação do DHS até hoje”, com o objetivo declarado de “erradicar a fraude” em Minnesota. No entanto, a função primordial do ICE e da Patrulha da Fronteira é fazer cumprir as leis de imigração, não investigar fraudes em programas sociais.

Tensão Política e a Rivalidade com o Governador Democrata

A escolha de Minnesota para essa ofensiva migratória também parece ter raízes profundas na rivalidade política entre Donald Trump e o governador democrata do estado, Tim Walz. Para a advogada de imigração Ana Pottratz, da Universidade de Minnesota, a animosidade pessoal pode ser um fator determinante.

Pottratz sugere que Trump pode ter escolhido Minnesota para suas ações de imigração por ter um conflito direto com o governador Walz, um proeminente opositor de Trump. A operação ocorre em um ano eleitoral, o que intensifica o clima de disputa política. Walz, inclusive, renunciou à sua candidatura à reeleição após o escândalo de fraude, o que muitos veem como uma consequência da pressão política.

O professor de ciências políticas Michael Minta, da Universidade de Minnesota, aponta que o governo Biden já havia processado responsáveis pela fraude, que não eram apenas somalis, mas também americanos brancos. O próprio estado de Minnesota também tomou medidas para combater a fraude. Minta questiona a justificativa de Trump para a ação recente, sugerindo que pode ser mais um movimento político do que uma necessidade real.

Minnesota como Estado Santuário e a Resistência às Políticas de Trump

Minnesota é historicamente considerado um estado santuário, o que significa que coopera de forma limitada com as autoridades federais na detenção e deportação de imigrantes sem documentos. Essa postura tem sido criticada por figuras republicanas, como o vice-presidente J.D. Vance, que atribui a falta de cooperação à escalada da situação.

O estado possui uma longa tradição de ativismo e progressismo, com forte resistência às políticas de Trump. Comunidades locais se organizaram para proteger imigrantes contra deportações e possíveis abusos. Voluntários treinados atuam como “observadores” das ações do ICE, alertando os imigrantes e documentando as operações.

Os incidentes em Minneapolis remetem aos protestos gerados pela morte de George Floyd, que também intensificaram os confrontos entre Trump e Walz. Essa história de ativismo e resistência pode ser mais um elemento que explica por que Minnesota se tornou o epicentro da recente ofensiva contra imigrantes, transformando o estado em um palco de disputa política e social.