Sarah Mullally é confirmada como arcebispa, liderança feminina histórica na Igreja da Inglaterra

Em um momento sem precedentes, Sarah Mullally foi confirmada nesta quarta-feira (28) como a nova arcebispa da Cantuária, tornando-se oficialmente a **primeira mulher a liderar a Igreja da Inglaterra**. Sua ascensão ao cargo, anunciado há quase quatro meses, foi oficializada em uma cerimônia legal presidida por juízes, marcando um capítulo significativo na história religiosa do país.

A Comunhão Anglicana mundial, composta por cerca de 100 milhões de membros em 165 países, embora não possua um chefe formal, tradicionalmente reconhece o arcebispo de Cantuária como seu líder espiritual. A confirmação de Mullally, de 63 anos e com um passado como enfermeira oncológica antes de ingressar no clero, sublinha o progresso das mulheres dentro da igreja.

A Igreja da Inglaterra, com origens no século XVI após sua separação da Igreja Católica Romana, tem gradualmente acolhido a liderança feminina. A ordenação de suas primeiras mulheres sacerdotes ocorreu em 1994, seguida pela primeira mulher bispa em 2015. A nomeação de Mullally, conforme divulgado em reportagens, representa um afastamento ainda maior da Igreja Católica, que proíbe a ordenação de mulheres. George Gross, especialista em teologia e monarquia no King’s College London, destacou essa diferença, enfatizando que a Igreja da Inglaterra avança em sua independência e abertura.

Desafios e Divisões na Comunhão Anglicana

Apesar da celebração deste marco histórico, a nomeação de Sarah Mullally **aprofundou divisões existentes dentro da Comunhão Anglicana**. Questões como o papel das mulheres e o tratamento de pessoas LGBTQ+ continuam a ser pontos de discórdia entre os fiéis em diversas partes do mundo. A liderança de Mullally será testada pela necessidade de unificar corações e mentes em temas sensíveis.

O arcebispo de Ruanda, Laurent Mbanda, presidente do conselho de bispos seniores da Gafcon, conhecido como primazes, expressou publicamente sua crítica ao apoio de Mullally às bênçãos de casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Essa oposição evidencia a profundidade das divergências teológicas e culturais que a nova arcebispa terá que navegar em seu ministério global.

Enfrentando o Legado de Abusos

Além das divisões doutrinárias, Sarah Mullally herdará a tarefa urgente de lidar com as persistentes preocupações sobre escândalos de abuso sexual que assombram a Igreja da Inglaterra há mais de uma década. A expectativa é que sua gestão priorize a transparência e ações eficazes para garantir a segurança e a justiça para as vítimas, além de restaurar a confiança na instituição.

Mullally sucede Justin Welby, cujo mandato terminou em novembro de 2024. Welby enfrentou críticas significativas por não ter comunicado às autoridades policiais alegações de abuso físico e sexual cometidas por um voluntário em um acampamento de verão ligado à igreja. A nova arcebispa terá a oportunidade de redefinir os protocolos e a cultura institucional em relação a essas denúncias graves.

O Caminho para a Instalação Formal

A nomeação de Mullally foi resultado de um processo conduzido por uma comissão de 17 membros, composta por clérigos e leigos, e recebeu a confirmação final do rei Charles III, governador supremo da igreja. No entanto, o processo de transição ainda não está completo.

A próxima etapa crucial ocorrerá em 25 de março, na Catedral de Cantuária. Neste dia, Sarah Mullally será formalmente instalada como bispa da diocese de Cantuária em uma cerimônia que marcará o início oficial de seu ministério público como a mais alta líder da Igreja da Inglaterra. A partir daí, seu trabalho de liderança e transformação terá início.