O Opus Dei perde status de prelazia pessoal e enfrenta redefinição de seu papel no Vaticano sob o pontificado de Francisco.

A organização conservadora Opus Dei, que por décadas gozou de um status privilegiado e único dentro da Igreja Católica, está no centro de uma disputa interna com o Vaticano. Decisões recentes do Papa Francisco visam reduzir a autonomia e os privilégios da instituição, marcando uma virada significativa após mais de 40 anos sob a égide de um tratamento especial concedido por João Paulo II.

Em 1982, o Papa João Paulo II elevou o Opus Dei de “instituto secular” para “prelazia pessoal”, uma classificação inédita que conferiu à organização uma autonomia administrativa considerável, isentando-a da subordinação aos bispos locais e equiparando-a, na prática, a uma diocese sem território definido. Essa mudança foi interpretada como um movimento conservador em um período de Guerra Fria.

Agora, o Papa Francisco, que demonstrava incômodo com a autonomia excessiva do grupo e a ideia de “regimes de exceção” dentro da Igreja, implementou reformas que alteram profundamente a estrutura e a influência do Opus Dei. As mudanças, oficializadas em documentos publicados entre 2022 e 2023, afetam desde a subordinação administrativa até o papel dos leigos na organização, conforme informações divulgadas pela BBC News Brasil.

A Perda da “Prelazia Pessoal” e o Rebaixamento Administrativo

Uma das alterações mais significativas foi a retirada do status de “prelazia pessoal” do Opus Dei e sua reclassificação como “associação clerical pública”. Essa mudança implica uma maior submissão à hierarquia da Igreja. Além disso, a organização agora se reporta ao Dicastério para o Clero, considerado inferior ao Dicastério para os Bispos, ao qual estava ligada anteriormente.

Essa mudança de dicastério foi vista como um “rebaixamento” e uma perda de poder. A exigência de relatórios anuais de atividades, em vez dos quinquenais anteriores, e a oficialização de que o prelado da instituição não seria mais automaticamente nomeado bispo, são outros sinais da nova postura do Vaticano.

Impacto na Estrutura e no Papel dos Leigos

A reforma de Francisco também alterou o papel dos leigos, que compõem a vasta maioria dos cerca de 90 mil membros do Opus Dei. Anteriormente considerados membros plenos da prelazia, sob as novas regras, os leigos precisam estar ligados às dioceses de seus territórios, e a primazia do clero é reforçada. A organização ainda está em processo de atualização de seus estatutos, com expectativas de que tudo seja concluído até 2028.

“Desta forma, o Opus Dei perderá sua autonomia e privilégios e deixará de ser uma ‘igreja dentro da Igreja'”, explica Aldo Fornazieri, cientista político e professor na Escola de Sociologia e Política de São Paulo. A organização, por sua vez, afirma estar trabalhando em sintonia com a Santa Sé para adequar seu estatuto, e o resultado desse trabalho foi entregue ao Vaticano em junho, aguardando aprovação papal.

Raízes Históricas e Controvérsias do Opus Dei

Fundado em 1928 na Espanha por Josemaria Escrivá de Balaguer, o Opus Dei sempre pregou o exercício da santidade no trabalho e na vida cotidiana. Seus pilares incluem valores morais rígidos, oração intensa, renúncia a prazeres e práticas de sacrifício físico. A organização, no entanto, também enfrentou controvérsias, como denúncias de exploração de mulheres e ligações históricas com regimes autoritários, incluindo a ditadura de Francisco Franco na Espanha e o regime militar na Argentina.

“Ainda hoje, elas são vistas na organização como alguém mais vocacionado para a lida da casa, sofrendo uma visão misógina e machista que está enraizada na instituição”, critica Rui Pedro Antunes, jornalista e autor do livro “Opus Dei: Eles Estão no Meio de Nós”. O Opus Dei também se posicionou contra o casamento entre homossexuais e legislações pró-eutanásia, gerando debate sobre seu papel em questões contemporâneas.

O Futuro Sob o Novo Pontificado e a Perspectiva dos Membros

A eleição do Papa Leão XIV, que sucedeu Francisco, trouxe uma nova incógnita sobre o futuro da relação com o Opus Dei. Embora alguns membros expressem esperança em uma abordagem mais amistosa, dada a experiência do atual papa em uma diocese com forte presença de sacerdotes ligados à organização, não há indicações de retrocesso nas decisões tomadas por Francisco. Analistas consideram improvável uma mudança de rumos, visto que o Opus Dei tem gerado desconforto em diversos segmentos católicos.

Membros do Opus Dei ouvidos pela BBC News Brasil, que pediram anonimato, indicaram não se importar com a questão de o prelado não ser mais nomeado bispo, afirmando que “não estamos preocupados com política interna, nem com hierarquia”. A organização, em nota oficial, reafirmou seu trabalho em sintonia com o Vaticano para adequar seu estatuto, aguardando a aprovação papal para divulgar mais informações.