Brasileiro naturalizado relata confronto com agentes do ICE em Minnesota e os preparativos de emergência de sua família
Um professor universitário brasileiro, agora cidadão americano, narrou em entrevista um encontro tenso com agentes do ICE (Immigration and Customs Enforcement), o serviço de imigração dos Estados Unidos, em um bairro de Minnesota. O incidente ocorreu em um contexto de crescente atuação federal no estado, onde a presença da agência foi significativamente ampliada.
Pedro de Abreu Gomes dos Santos, professor de Ciência Política, questionou a legalidade das ações dos agentes, que tentavam entrar em residências. Ele faz parte de um grupo que apoia imigrantes em situações de abordagem pela agência. O professor se recusou a apresentar sua identificação, amparado pela legislação local, argumentando que, como cidadão, não era obrigado a fazê-lo naquela circunstância específica.
A experiência vivida por Pedro e o clima de vigilância constante levaram a família a traçar um plano de emergência, incluindo a criação de um fundo financeiro para viagens inesperadas e a organização de documentos essenciais. A situação se tornou um alerta, e a família se preparou para o que antes era considerado impensável, como a possibilidade de processos de desnaturalização. As informações foram divulgadas pelo podcast O Assunto, do g1.
Agressividade e medo: o relato do professor
Pedro descreveu a resposta de um dos agentes como imediata e agressiva. A tensão só diminuiu com a chegada de um supervisor, mas o professor ressaltou que a “calma” era relativa. Ele percebe uma diferença entre os agentes de carreira e os novos recrutas, observando que o questionamento das ações do ICE frequentemente gera reações violentas por parte dos menos treinados. Essa observação reflete um receio crescente na comunidade.
O professor, que é americano naturalizado, casado com uma americana e pai de filhos americanos, leciona no College of Saint Benedict e na Saint John’s University. Sua posição como figura visível em eventos de resistência e monitoramento agrava seu receio. Ele nota que esse sentimento de insegurança é generalizado, afetando desde brasileiros com green card até jovens americanos natos de comunidades minoritárias.
Plano de emergência e vigilância constante
Diante da possibilidade de novos processos de desnaturalização movidos pelo governo, o que antes era impensável tornou-se uma necessidade logística para a família de Pedro. Eles estabeleceram protocolos para enfrentar uma possível prisão ou deportação. Isso inclui a criação de uma reserva financeira específica para custear viagens repentinas, garantindo que a família possa se locomover rapidamente caso necessário.
Além disso, a prontidão de documentos se tornou um hábito. Toda a documentação necessária para acesso imediato foi organizada, diferindo da rotina anterior da família. A vigilância permanente se manifesta também no costume de portar documentos de cidadania em tempo integral, uma prática que se estendeu a outros brasileiros na região, evidenciando a preocupação compartilhada.
Clima de insegurança afeta a comunidade
Para Pedro, o receio é agravado por ser uma figura visível em eventos de resistência e monitoramento. Ele observa que esse sentimento de insegurança é generalizado, afetando desde brasileiros com green card até crianças da comunidade somali. Mesmo sendo americanas natas, essas crianças agora correm para casa ao avistar veículos suspeitos nos pontos de ônibus, demonstrando o impacto psicológico do clima atual.
A expansão da presença de agentes do ICE no estado de Minnesota, ocorrida no início de janeiro, intensificou as operações federais. O incidente relatado por Pedro ocorreu no dia seguinte à morte de Renée Nicole Good, uma americana de 37 anos, baleada por um agente do ICE. Esse contexto eleva a tensão e a apreensão entre os residentes, especialmente em bairros com grande concentração de imigrantes.