PT tenta capitalizar a crise venezuelana contra a direita, mas o tema expõe divisões internas sobre democracia e ditadura.
A crise na Venezuela voltou a ser um ponto central no debate político brasileiro, com o PT buscando usar o tema para descredibilizar a direita e o bolsonarismo. A estratégia petista foca em discursos de soberania nacional, acusando a oposição de ter intenções “entreguistas” para o Brasil.
No entanto, a questão venezuelana permanece como um assunto delicado para o PT, pois reaviva profundas divisões internas sobre a interpretação do conceito de democracia e o reconhecimento do regime de Nicolás Maduro como uma ditadura. Essa complexidade interna se manifesta nas diferentes visões dentro do partido.
Segundo parlamentares da base governista, a ideia é apresentar a oposição como defensora de intervenções estrangeiras, contrastando com a defesa da paz na América do Sul. A fonte para essa informação são declarações de integrantes do PT, como o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), líder do partido na Câmara, que afirma que “essa coisa de Brasil virar Venezuela nunca pegou”. Conforme divulgado pela reportagem, Farias acrescenta que “o que vai pegar nas eleições é a bandeira da paz na América do Sul. A direita está atacando a democracia e defendendo uma intervenção aqui”.
A direita e o “fantasma da Venezuela”
A direita brasileira, por sua vez, tem intensificado o uso da crise venezuelana como um argumento eleitoral. A estratégia consiste em associar o PT ao regime chavista, utilizando a conhecida frase “o Brasil vai virar uma Venezuela” para amedrontar eleitores. Essa tática se apoia na relutância histórica do PT em reconhecer a Venezuela como uma ditadura.
Um exemplo dessa abordagem foi a montagem compartilhada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que mostrava o presidente Lula sendo preso pelo exército americano. Essa postagem gerou reações da esquerda, com acionamento da Procuradoria-Geral da República. A reportagem lembra ainda que, em outubro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) já havia feito uma postagem que sugeria uma intervenção dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, alimentando acusações de “entreguismo”.
Divisões internas no PT e diferentes visões sobre a Venezuela
A postura do PT em relação à Venezuela, contudo, não é unânime. Enquanto alguns membros do partido, como o deputado Reimont (PT-RJ), presidente da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial, classificam o regime venezuelano como uma ditadura que viola direitos humanos, outros, como o historiador Valter Pomar, divergem.
Pomar, alinhado à corrente Articulação de Esquerda, nega que Maduro seja um ditador e argumenta que a comparação do Brasil com a Venezuela pela direita revela um desejo por intervenção externa. Ele afirma, segundo a reportagem, que “se a Venezuela fosse uma ditadura, Trump não teria sequestrado Maduro. Ademais, nosso problema real hoje não é a caracterização do chavismo. O problema real é saber se a América Latina será dos Estados Unidos ou será dos latino-americanos”.
A relação histórica entre PT e Venezuela
A proximidade entre o PT e os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro remonta ao início dos anos 2000, com a “onda rosa” de governos de esquerda na América Latina. Lula e Chávez compartilharam um projeto de desenvolvimento social e econômico para a região, o que se manifestou em diversos grupos de cooperação e instituições políticas.
Com o tempo, as crises na Venezuela e a escassez de recursos financeiros dificultaram a concretização desse projeto. O regime chavista, segundo a professora de ciência política Mayra Goulart, da UFRJ, “se fechou cada vez em seu próprio militarismo, o que gerou desconfiança das esquerdas”. Goulart aponta que, na política brasileira, a Venezuela passou a ocupar um lugar similar ao que Cuba ocupou durante a Guerra Fria no imaginário social, servindo como um “marcador de radicalidade” e um catalisador de emoções em torno da ideia de comunismo.
Solidariedade e críticas à intervenção estrangeira
Em meio às incertezas sobre o futuro da Venezuela, PT, PSOL e MST fundaram uma frente em solidariedade à população venezuelana. Lula e a bancada petista emitiram notas criticando a intervenção dos Estados Unidos. Essa posição contrasta com a de governadores de direita, como Tarcísio de Freitas (Republicanos), que comemoraram a ação, utilizando a imagem de Lula com Maduro para reforçar a associação com o chavismo.
Apesar das críticas à intervenção, o PT busca dialogar com a população brasileira, como afirma Reimont: “Compreendemos que a Venezuela deve resolver os problemas por conta própria”. Ele reconhece que a direita explorará o “fantasma da Venezuela”, mas acredita que o partido tem elementos para contra-atacar, comparando a postura da direita com o que considera “terrorismo eleitoral”.
A falta de reconhecimento da eleição de Maduro por observadores internacionais, como o Carter Center e a OEA, em 2024, e a própria hesitação de Lula em classificar o regime como ditadura, em vez de “regime desagradável”, refletem as complexidades e divisões que o tema gera dentro do próprio PT.