Sobreviventes de ataque com míssil nos EUA à Venezuela relatam o trauma e a destruição em suas casas

Um ataque com mísseis ordenado pelos Estados Unidos, que visava a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, deixou um rastro de destruição e medo em um prédio residencial na cidade de Catia La Mar. Moradores relatam o pânico e a incredulidade ao serem atingidos por um projétil em suas casas, em um evento que chocou a população local.

O bombardeio, que ocorreu no dia 3 de janeiro, teve como alvo principal instalações militares e de comunicação da Venezuela. No entanto, um dos edifícios civis atingidos, o Bloco 12, era habitado majoritariamente por idosos e se tornou um símbolo trágico da operação americana. A BBC News Mundo conversou com sobreviventes que compartilharam suas experiências aterrorizantes.

Wilman González, um eletricista de 54 anos, sobreviveu quando um míssil atingiu seu apartamento nas primeiras horas da manhã. Ele descreve o momento de desespero, a sensação de morte iminente e a luta para socorrer seus familiares. As Forças Armadas norte-americanas realizaram o ataque que resultou na captura de Maduro, que agora enfrenta acusações em Nova York. Conforme informação divulgada pelo ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, a operação americana causou a morte de cerca de 100 pessoas, entre civis e militares.

O dia em que o céu caiu sobre Catia La Mar

O Bloco 12, um antigo edifício localizado próximo à Academia da Marinha Bolivariana, tornou-se um cenário de devastação. Wilman González conta que um míssil caiu diretamente em seu apartamento por volta das 2h da manhã. “Senti que havia morrido”, recorda ele, que foi atingido por uma lasca de madeira no rosto.

A tia de Wilman, Rosa González, foi atingida por uma máquina de lavar que voou com a força da explosão. “Havia uma máquina de lavar em cima dela. Uma máquina de lavar que, com o impacto, saiu voando e caiu em cima dela”, relata Wilman. Apesar dos esforços para salvá-la, Rosa não resistiu e faleceu. Seu velório ocorreu dois dias após o bombardeio.

“Estamos assustados, nunca estivemos em uma guerra”, desabafa Wilman, que agora mora na casa de um cunhado. Ele observa os escombros do que antes era seu lar, sem conseguir compreender a tragédia. “Senhores, não à guerra, não à guerra! Não precisamos da guerra, o que precisamos é comer e viver”, grita ele, revoltado.

“Nunca achei que fossem me atacar”

Jorge Cardona, vizinho de 70 anos, estava na sala de seu apartamento quando o míssil atingiu o prédio. Ele foi arremessado contra o corredor pela força do impacto, que destruiu móveis e parte da estrutura. “A parede do vizinho veio para minha casa e arrancou móveis, levou tudo”, conta.

Ao se recuperar, Cardona foi verificar os vizinhos. “Pensei que estivessem nos atacando, mas nunca achei que fossem me atacar”, afirma ele, descrevendo o evento como algo surreal, digno de filmes de Hollywood. O míssil atingiu o teto superior e atravessou o banheiro, deixando os moradores aliviados por terem sobrevivido milagrosamente.

Resiliência e o trauma que permanece

Jesús Linares, coronel dos bombeiros com 28 anos de serviço, foi acordado por um zumbido alto, inicialmente confundido com fogos de artifício. O impacto do míssil destruiu a entrada principal de sua casa. “A onda de expansão me atirou ao chão e senti que algo atingia minha cabeça”, relata.

Linares agiu rapidamente para proteger sua filha de 16 anos e sua mãe de 85 anos. Ele conseguiu resgatar uma vizinha ferida, improvisando bandagens para conter hemorragias. Sua filha e sua mãe sofreram apenas traumatismos leves. Ele acredita que seu treinamento como bombeiro o ajudou a agir instintivamente em meio ao caos.

Apesar de estar acostumado a lidar com emergências, a queda do míssil deixou sequelas em Linares. Ele acorda todas as noites por volta das 2h da madrugada, horário do ataque, revivendo o trauma. Atualmente, ele colabora na reconstrução do Bloco 12, alojado na casa de um parente, com a esperança de um dia retornar ao seu lar.