Nova Doutrina Monroe: Trump envia recado à China ao agir na Venezuela

A recente ação do governo de Donald Trump na Venezuela, incluindo o bombardeio a Caracas e a prisão de Nicolás Maduro, é interpretada por especialistas como uma nova fase da Doutrina Monroe. Essa doutrina, que historicamente estabelece a América Latina como uma esfera de influência dos Estados Unidos, parece ter ganhado um novo contorno sob a gestão republicana, com um foco renovado em conter o avanço de potências não hemisféricas, especialmente a China.

A acadêmica e jornalista britânica Grace Livingstone, autora do livro “America’s Backyard: The United States and Latin America from the Monroe Doctrine to the War on Terror”, explica que a estratégia atual dos EUA na região vai além da retórica democrática. Em entrevista à BBC News Brasil, ela aponta que o objetivo principal é defender os interesses americanos, incluindo o controle de recursos estratégicos e a exclusão de concorrentes como a China de áreas consideradas vitais.

A Doutrina Monroe, originalmente formulada em 1823, visava impedir intervenções europeias no hemisfério ocidental. Posteriormente, o “corolário Roosevelt” ampliou essa visão, permitindo intervenções americanas para estabilizar governos. Agora, o “corolário Trump”, como alguns analistas o chamam, parece focar explicitamente em desafiar a crescente influência chinesa na América Latina, enviando uma mensagem clara sobre a disposição dos EUA em manter sua hegemonia regional.

O “Corolário Trump”: Uma Nova Abordagem de Poder

Grace Livingstone destaca que a atual abordagem americana na Venezuela difere das intervenções passadas. Ao contrário das ações militares mais diretas no Caribe e América Central no século XX, a estratégia atual parece mais explícita em sua defesa de interesses econômicos e de segurança dos EUA. Livingstone observa que os EUA abandonaram qualquer pretensão de que essas ações sejam puramente pela democracia, focando em defender seus próprios interesses e recursos estratégicos.

A especialista aponta que o governo Trump, em sua Estratégia de Segurança Nacional, declarou explicitamente a intenção de “negar aos concorrentes não-hemisféricos a capacidade de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais”. Isso demonstra uma clara intenção de manter a China, vista como a maior ameaça e concorrente, fora da esfera de influência americana.

China como Alvo Principal da Nova Doutrina

A ação na Venezuela é vista como um recado direto para a China, que tem aumentado significativamente seus investimentos e influência econômica na América Latina. Livingstone afirma que a China é uma das maiores preocupações de segurança para o governo Trump, que a considera a principal ameaça e concorrente. Portanto, a Doutrina Monroe sob Trump é uma forma de sinalizar que os EUA desejam a China fora de sua “esfera de influência”.

A influência chinesa na região tem crescido através de investimentos, empréstimos e um aumento massivo no comércio. Embora a China condene intervenções como a da Venezuela, a especialista acredita que ela buscará evitar confrontos diretos, mas manterá seu interesse em relações econômicas benéficas para seu próprio crescimento.

Diferentes Visões Dentro do Governo Trump e Impactos Eleitorais

Livingstone também menciona que existem diferentes visões sobre a América Latina dentro do próprio governo Trump. Enquanto o Secretário de Estado, Marco Rubio, teria uma agenda mais ideológica, com foco em mudanças de regime em países como Venezuela, Nicarágua e Cuba, o próprio presidente Trump teria interesses mais transacionais e econômicos, buscando abrir mercados para empresas americanas.

A especialista sugere que o governo Trump pode tentar influenciar eleições em outros países da região, como no Brasil. Ela não descarta a possibilidade de apoio a candidatos alinhados, como Flavio Bolsonaro, através de pressão econômica e retórica ameaçadora, seguindo uma estratégia de “dividir para governar” que visa isolar países e pressioná-los individualmente.

Respostas dos Países Latino-Americanos e o Futuro da Venezuela

Diante dessa nova abordagem americana, Livingstone sugere que a melhor resposta para os países latino-americanos seria trabalhar juntos. No entanto, ela reconhece a forte polarização ideológica na região, que dificulta uma união coesa. Enquanto alguns governos de direita apoiam as ações dos EUA, outros, como os da Colômbia e Brasil, expressam forte crítica.

Quanto ao futuro da Venezuela, a situação permanece incerta. Os EUA buscam pressionar o governo atual por mais acesso a recursos, enquanto a Venezuela demonstra uma postura mais flexível para o desenvolvimento. A possibilidade de eleições livres e justas é um ponto crucial, mas o temor de indiciamento e extradição para os EUA, especialmente entre líderes militares, parece ser um fator que mantém o governo unido e agarrado ao poder.