Jovens espanhóis buscam o campo: A fuga dos altos preços e a busca por qualidade de vida
O sonho da casa própria nas grandes cidades espanholas tem se tornado cada vez mais distante para muitos jovens. O cenário de aluguéis exorbitantes e a dificuldade de acesso ao financiamento imobiliário têm levado uma parcela significativa da juventude a reconsiderar seus planos de vida.
Essa mudança de perspectiva tem impulsionado um movimento crescente de migração para áreas rurais, onde a qualidade de vida e a possibilidade de adquirir um imóvel com recursos próprios se tornam mais realistas. A tendência, batizada de ‘neorrurais’, ganhou força especialmente após a pandemia.
Conforme informações divulgadas pelo portal imobiliário Fotocasa, uma pesquisa revelou que 63% das pessoas que buscavam moradia, para alugar ou comprar, gostariam de se mudar para uma área rural. O desejo é ainda mais acentuado entre os jovens, que veem no campo uma esperança para a emancipação. Conforme o g1, Ainara e Roger, cientistas que viviam em Sevilha, conseguiram comprar sua casa à vista em Corterrangel, uma pequena aldeia de 15 habitantes, com o que haviam economizado.
O alto custo da vida urbana como principal motor
Os preços dos imóveis na Espanha ultrapassaram os valores da bolha imobiliária de 2008, e os aluguéis apresentaram altas de dois dígitos em diversas comunidades autônomas, segundo María Matos, diretora de estudos e porta-voz do portal imobiliário Fotocasa. Em Madri, o aluguel médio por metro quadrado custa cerca de 22,37 euros, o que para um imóvel de 80 m² pode chegar a aproximadamente 1.789,60 euros mensais.
A disparidade entre os salários e o custo de vida nas cidades é gritante. Em 2024, o salário médio bruto na Espanha foi de 2.385 euros, mas para menores de 25 anos, o valor cai para 1.372,8 euros mensais. Essa realidade levou Anaí Meléndez, que trabalhava em Madri, a deixar a capital e abrir um restaurante especializado em carnes na brasa em Nava del Rey, sua cidade natal.
A nova vida no campo: Desafios e recompensas dos ‘neorrurais’
A decisão de se tornar um ‘neorrural’ envolve mais do que fugir dos altos preços. Para muitos, como Ainara e Roger, o apelo reside na qualidade de vida, no silêncio e no contato com a natureza. Eles valorizam a criação da filha em um ambiente sem trânsito ou ruídos, com espaço para uma horta e animais.
No entanto, a transição não é isenta de desafios. A falta de serviços convenientes, como mercados abertos 24 horas ou entregas rápidas, exige adaptação. Anaí Meléndez admite que é difícil abrir mão de um estilo de vida acostumado a certas comodidades urbanas.
A ‘Espanha Vazia’ ganha novos moradores
As áreas rurais espanholas, historicamente marcadas pelo êxodo para as cidades, enfrentam o desafio do despovoamento e da perda de serviços. Organizações como a Associação para o Desenvolvimento Integral do Vale de Ambroz (DIVA) buscam revitalizar essas regiões, gerando empregos e atraindo novos moradores, incluindo famílias latino-americanas.
Apesar do interesse crescente, a escassez de moradia em muitos vilarejos é uma barreira significativa. O déficit habitacional na Espanha, que acumula uma demanda de quase 150 mil moradias por ano, também afeta as áreas rurais, onde projetos de moradia pública são raros. A falta de habitação é uma das principais razões pelas quais mais pessoas não se mudam para os povoados, segundo Diego Curto, gerente da DIVA.
Superando estereótipos e construindo um futuro no campo
Os estereótipos sobre a vida no campo também podem afastar potenciais novos moradores. No entanto, muitos que fizeram a mudança relatam ter encontrado comunidades vibrantes e pessoas com histórias interessantes. A oportunidade de criar um negócio próprio, como o restaurante de Anaí ou a produção de vinho em vinhas antigas, demonstra o potencial de empreendedorismo nas áreas rurais.
Apesar dos sacrifícios e da necessidade de adaptação, a experiência dos ‘neorrurais’ sugere que é possível construir uma vida mais tranquila e com maior qualidade no campo, desde que haja planejamento, resiliência e, muitas vezes, a criação de novas oportunidades de trabalho.