O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, declarou nesta sexta-feira (9) que seu governo “não vai recuar” diante dos protestos generalizados que tomam as ruas da capital, Teerã, há quase duas semanas. Esta foi a primeira vez que Khamenei se pronunciou oficialmente desde a escalada das manifestações no início de 2026.

Em discurso transmitido pela TV estatal, Khamenei dirigiu-se aos manifestantes, chamando-os de “vândalos” e “sabotadores”. Ele acusou um grupo específico de ter destruído um prédio estatal em Teerã, afirmando que agiram apenas para “agradar o presidente dos Estados Unidos”, Donald Trump. O líder iraniano também aconselhou Trump a “cuidar do seu próprio país”.

Khamenei foi além, pintando um quadro sombrio da relação entre Irã e EUA. Ele declarou que as mãos do presidente americano estão “manchadas com o sangue de mais de mil iranianos”. O líder supremo iraniano classificou Trump como “arrogante” e previu que o presidente americano seria “derrubado”, comparando-o à dinastia imperial que governou o Irã até a Revolução de 1979.

A quinta-feira (8) foi marcada por um “dia sangrento” nos protestos, com relatos de forte repressão policial. Em resposta à crescente tensão, Khamenei ordenou um apagão da internet e da rede telefônica em todo o país, medida que aprofundou a crise de comunicação e informação.

A onda de protestos, que já dura 12 dias, intensificou-se na quinta-feira com a repressão do regime iraniano. Paralelamente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, comentou a situação. Em entrevista a um apresentador de rádio conservador, Trump afirmou: “Deixei claro para eles que, se começarem a matar pessoas – o que tendem a fazer durante seus distúrbios, eles têm muitos distúrbios – se fizerem isso, nós os atingiremos muito duramente”.

Os protestos no Irã tiveram início em 28 de dezembro, quando comerciantes em Teerã manifestaram-se contra o aumento dos preços e o colapso da moeda local, o rial. Esses atos desencadearam manifestações semelhantes em outras cidades, com pautas que se expandiram para além das questões econômicas, incluindo pedidos pela saída do líder supremo do poder.

Segundo uma contagem da Agência France-Presse (AFP), os protestos se espalharam por 25 das 31 províncias iranianas. Dezenas de pessoas morreram, incluindo membros das forças de segurança. Imagens divulgadas em redes sociais mostram grandes manifestações nas ruas.

Vídeos autenticados pela AFP revelam manifestantes entoando slogans como “é a batalha final, Pahlavi voltará”, uma referência à dinastia derrubada pela Revolução Islâmica de 1979, e “Seyyed Ali será destituído”, em alusão direta ao líder supremo Ali Khamenei, que está no poder desde 1989.

A ONG de vigilância de segurança cibernética Netblocks confirmou que o Irã está “atualmente sujeito a um corte de internet em escala nacional”, com base em dados em tempo real. O número exato de mortos nos protestos ainda não é conhecido.

A ONG Iran Human Rights (IHR), sediada na Noruega, reportou a morte de pelo menos 45 manifestantes, incluindo oito menores de idade. A quarta-feira (7) foi o dia mais letal, com 13 mortos, de acordo com a organização. Centenas de pessoas ficaram feridas e mais de 2 mil foram detidas.

Estas manifestações representam os maiores protestos no Irã desde aqueles que ocorreram após a morte da jovem Mahsa Amini em 2022, que foi presa por supostamente violar as rígidas normas de vestuário impostas às mulheres no país.