Estudo Brasileiro Revoluciona Entendimento das Sequelas do Zika em Crianças

Pesquisadores brasileiros publicaram o maior estudo mundial sobre os efeitos do vírus Zika na infância. A pesquisa, que reuniu dados de 843 crianças com microcefalia nascidas entre 2015 e 2018, lança luz sobre as complexas sequelas deixadas pelo vírus, oferecendo novas perspectivas para o tratamento e acompanhamento.

O estudo, divulgado no periódico científico PLOS Global Public Health, buscou uniformizar informações e definir o espectro da microcefalia causada pelo Zika. A epidemia que atingiu o Brasil entre 2015 e 2016 gerou a maior incidência de microcefalia por Zika do mundo, tornando a pesquisa brasileira fundamental para a comunidade científica global.

“Não há estudo anterior publicado com esse número de crianças”, destacou a pesquisadora Maria Elizabeth Lopes Moreira, do IFF/Fiocruz, ressaltando a singularidade e a importância dos dados primários examinados. Conforme informado pela Agência Brasil, o estudo consolida o conhecimento construído nos últimos dez anos sobre a Síndrome Congênita do Zika (SCZ).

Anatomia da Microcefalia por Zika: Um Quadro Distinto

Uma das descobertas mais significativas do estudo é a caracterização detalhada da microcefalia causada pelo Zika. Maria Elizabeth explicou que, diferentemente de outras microcefalias onde o cérebro simplesmente é menor, no caso do Zika, o cérebro pode apresentar um crescimento normal seguido de destruição celular e colapso. Essa condição, denominada por ela como uma “microcefalia diferente”, afeta também a estrutura óssea.

Essa anatomia cerebral peculiar está associada a uma série de distúrbios neurológicos, auditivos e visuais. As convulsões, muitas vezes de difícil controle, são uma manifestação frequente, ligada à epilepsia induzida pelo vírus. A complexidade dessas manifestações exige um olhar atento e especializado.

Principais Sequelas Identificadas em Crianças Afetadas pelo Zika

As sequelas mais frequentes, segundo a professora Cristina Hofer, da UFRJ, incluem anormalidades estruturais do sistema nervoso central, detectadas por neuroimagem, além de alterações neurológicas e oftalmológicas. A microcefalia ao nascer foi observada em 71,3% dos casos, sendo 63,9% graves. A prematuridade e o baixo peso ao nascer também foram recorrentes.

As alterações neurológicas mais comuns englobam déficit de atenção social (cerca de 50% das crianças), epilepsia (média de 58,3%, variando de 30% a 80%) e persistência de reflexos primitivos (63,1%). No campo sensorial, até 67,1% apresentaram alterações oftalmológicas, com comprometimento auditivo também presente. Exames de neuroimagem revelaram calcificações cerebrais em 81,7% e ventriculomegalia em 76,8%.

É crucial notar que cerca de 30% das crianças estudadas já faleceram. As que permanecem vivas, com idades entre 8 e 10 anos, enfrentam desafios significativos na inclusão escolar, muitos devido à paralisia cerebral grave ou a déficits de atenção e aprendizagem.

Recomendações e a Importância da Estimulação Precoce

Diante da ausência de um tratamento específico para o vírus Zika, a principal recomendação é a prevenção. Mulheres grávidas devem evitar áreas infestadas pelo mosquito Aedes aegypti, usar repelentes e roupas adequadas, especialmente em épocas de epidemia. A pesquisadora Maria Elizabeth destaca a dificuldade dessa medida para parte da população.

A estimulação precoce é fundamental desde o nascimento. Bebês expostos ao vírus, mesmo sem microcefalia aparente, podem ter atrasos no desenvolvimento e respondem muito bem a intervenções como fisioterapia e fonoaudiologia. A neuroplasticidade infantil permite a formação de novas células cerebrais com estímulos adequados, melhorando o prognóstico.

Maria Elizabeth estima que cerca de 70% das gestantes em épocas de epidemia podem ter Zika de forma assintomática, e ainda não existe um exame sorológico confiável para detectar a infecção passada. A intervenção só é possível após o nascimento, com foco na estimulação.

Cuidados Contínuos e Desafios Sociais

As crianças que nascem com o vírus Zika necessitam de cuidados multidisciplinares e assistência contínua ao longo da vida, devido aos graves danos ao sistema nervoso central. O pesquisador Ricardo Ximenes, da UFPE e UPE, enfatiza essa necessidade de acompanhamento.

O acesso a esses cuidados representa um obstáculo no Brasil, forçando mães a uma verdadeira peregrinação por serviços de saúde. A carga social e emocional sobre as famílias é imensa, com muitos casos de abandono paterno, deixando a mãe solo a enfrentar a situação. O desenvolvimento de uma vacina para mulheres em idade fértil é apontado como uma necessidade urgente.

O acompanhamento pós-publicação do estudo continuará, focando nos impactos do Zika na vida escolar, especialmente em crianças cujas mães foram infectadas, mas que não desenvolveram microcefalia. A investigação do neurodesenvolvimento dessas crianças é crucial para prevenir problemas mais graves e garantir o melhor desenvolvimento possível.