Guilherme Cortez alerta: Esquerda precisa de uma nova narrativa para reconquistar o eleitorado, focando em futuro e propostas palpáveis.
O deputado estadual paulista Guilherme Cortez (PSOL), que a partir de 2027 atuará em Brasília, propõe uma reflexão profunda sobre a estratégia da esquerda no cenário político brasileiro. Segundo ele, o campo progressista precisa abandonar um discurso de superioridade moral e, em vez disso, focar na apresentação de saídas animadoras e concretas para os desafios enfrentados pela população.
Cortez argumenta que a vitória de Lula (PT) no segundo turno das eleições presidenciais foi um indicativo dessa necessidade. A campanha petista conseguiu apresentar uma visão de futuro que ressoou com o eleitorado, contrastando com uma postura mais reativa que predominava anteriormente. Essa análise foi reforçada após a disputa acirrada, onde a extrema direita demonstrou grande capacidade de mobilização.
“A gente não ganha da extrema direita na inércia”, afirma Cortez, que obteve a nona melhor colocação entre os deputados eleitos por São Paulo. Ele destaca a importância de uma militância ativa e mobilizada, assim como a que a extrema direita demonstrou possuir. As urnas, segundo ele, enviaram um recado claro sobre a necessidade de renovação e de uma comunicação mais eficaz, especialmente nas redes sociais.
Renovação e o Poder das Redes Sociais na Política Contemporânea
O deputado eleito pelo PSOL observa que os parlamentares mais votados em todo o país, tanto à esquerda quanto à direita, foram figuras jovens que se destacam na comunicação digital e abordam pautas concretas voltadas para o futuro. Ele cita como exemplo a não eleição de José Dirceu (PT-SP), octogenário e uma aposta do PT como puxador de votos, em contraste com a média de idade de 31,6 anos dos dez deputados mais bem votados, todos com forte presença online.
“O eleitor acelerou o processo de renovação da esquerda”, pontua Cortez. Ele ressalta que o progressismo precisa dessa juventude para se manter relevante e dialogar com novas gerações que não possuem fidelidade automática à esquerda. Para disputar de igual para igual com nomes como Nikolas Ferreira e outros representantes da direita, é fundamental abraçar essa renovação.
Cortez, que se identifica como bissexual, defende que sua atuação parlamentar não se limitará a pautas identitárias. Ele ressalta que pessoas LGBTQIA+ também trabalham e dependem de serviços públicos, como transporte, e que pautas como o fim da escala 6×1, protagonizadas por Erika Hilton e Rick Azevedo, ambos do PSOL, demonstram a amplitude das preocupações do campo progressista.
A Extrema Direita e a Oferta de Soluções Simplistas para Frustrações Reais
O deputado critica a tendência de alguns setores da esquerda em rotular todos os eleitores da direita, especialmente os de Jair Bolsonaro, como fascistas. Ele considera contraproducente a expressão “pobre de direita” e rejeita a ideia de que o campo progressista seja intrinsecamente superior em termos de racionalidade. Essa postura, segundo ele, gera mais resistência.
Cortez avalia que a extrema direita se aproveita de frustrações reais, oferecendo soluções falsas. Em vez de abordar as causas de dificuldades econômicas, ela culpa o feminismo ou a presença feminina em determinados espaços. Ele admira a comunicação de políticos como o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, que aborda temas populares de forma simples, como creches acessíveis e controle de aluguéis, sem medo de se declarar socialista.
Ele discorda da tese de que a esquerda perdeu totalmente a conexão com o povo, lembrando que ainda é possível vencer eleições. No entanto, reconhece que a esquerda perdeu vínculos cotidianos antes mantidos por meio de sindicatos e comunidades. Cortez alerta que, embora a esquerda possa vencer eleições pontuais, o avanço de discursos antifeministas e masculinistas entre os jovens representa uma ameaça a longo prazo à perspectiva de futuro do país.
Um Novo Caminho: Falar de Futuro, Não Apenas do Passado
Para Guilherme Cortez, é crucial que a esquerda fale mais sobre o futuro do que sobre o passado. Ele argumenta que muitos jovens que se beneficiaram de programas sociais como o Bolsa Família e as cotas raciais não vivenciaram o Brasil antes dessas políticas, tornando ineficaz a mera exaltação de gestões petistas anteriores. O desafio é engajar eleitores que cresceram em meio a crises e um cenário apocalíptico, amplificado pela urgência das redes sociais.
Ele promete ser um obstáculo para nomes como Nikolas Ferreira, que domina o debate em parte do ambiente digital. Cortez acredita que o segundo turno das eleições presidenciais demonstrou que mesmo figuras com grande apelo online podem ser derrotadas. A estratégia, segundo ele, é ampliar o diálogo e oferecer propostas concretas que atendam às necessidades da população.
A trajetória de Cortez inclui ativismo desde a adolescência, participação em ocupações estudantis e uma atuação combativa contra o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, a quem chamou de “ecocida”. Seu projeto de lei para incluir educação climática nas escolas estaduais foi vetado, mas ele continua engajado no combate a taxas abusivas de ingressos e cambismo digital.