Planalto aposta na cautela para evitar crise diplomática com EUA por fuga de Flávio Bolsonaro, enquanto Trump é citado em ajuda.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu manter uma postura de distanciamento em relação à polêmica envolvendo a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos. A avaliação no Planalto é que qualquer intervenção de Lula seria despropositada, uma vez que o senador, candidato derrotado à Presidência, estaria se auto-desgastando com a situação.
A prioridade do governo é evitar um potencial atrito diplomático com o presidente americano, Donald Trump, por conta de um adversário político. Essa determinação se manteve firme mesmo após reportagens em jornais americanos, como The Wall Street Journal e The New York Times, indicarem que Trump teria auxiliado na fuga de Flávio Bolsonaro.
Segundo as publicações, o jato particular utilizado por Flávio Bolsonaro em sua viagem foi providenciado por Jason Miller, ex-funcionário da Casa Branca e ligado a redes sociais conservadoras. A informação foi corroborada por um aliado de Flávio Bolsonaro à Folha de S. Paulo, conforme divulgado pelas fontes. O governo brasileiro pretende, portanto, preservar a relação comercial e as negociações em curso com os Estados Unidos.
Jason Miller e a conexão com a família Bolsonaro
Jason Miller, que estreitou laços com a família Bolsonaro através de seu envolvimento com a rede social Gettr, já esteve sob escrutínio da Polícia Federal. Em setembro de 2021, ele foi interrogado em Brasília em uma investigação sobre atos antidemocráticos, conduzida pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Na ocasião, Miller participou de uma conferência organizada por Eduardo Bolsonaro e se encontrou com Jair Bolsonaro, então presidente da República. A ligação de Miller com a família e sua suposta participação na facilitação da saída de Flávio Bolsonaro do país adicionam uma camada de complexidade ao caso.
Intimação da PF e o trajeto de Flávio Bolsonaro
A partida de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos ocorreu logo após ele ser intimado pela Polícia Federal a entregar seus passaportes. O senador é alvo de um inquérito que apura seu suposto envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro. Antes de chegar ao território americano, Flávio Bolsonaro fez escalas na Argentina e no Equador.
Auxiliares de Lula têm reiterado que quaisquer providências legais relacionadas à saída de Flávio Bolsonaro do país são de competência do Judiciário, e não da Presidência da República. O presidente Lula, recém-reeleito, prefere dedicar seu tempo a assuntos de maior prioridade para sua nova gestão e às negociações comerciais, como as tarifas.
Armadilha política e a estratégia de Flávio Bolsonaro
Aliados de Lula interpretam a atitude de Flávio Bolsonaro como uma tentativa de atrair o presidente para uma armadilha política. O objetivo seria sabotar a relação entre Lula e Donald Trump, que, segundo relatos, tem sido cordial. Ao provocar o presidente brasileiro, Flávio Bolsonaro buscaria gerar um estresse nessa relação com o ex-presidente americano.
Em uma carta divulgada na quarta-feira (28), Flávio Bolsonaro chegou a se autoproclamar “verdadeiro presidente do Brasil”, atualizando posteriormente o documento para “líder do Brasil”. Ele alega, sem apresentar provas, que a eleição brasileira foi fraudada. Anteriormente, na segunda-feira (26), ele havia declarado que não fugiria do país e desistiria de anular a eleição na Justiça.
Trump e a cautela do governo brasileiro
Até o momento, Donald Trump não reconheceu explicitamente a vitória de Lula, classificando a eleição brasileira como uma “vergonha”. Apesar disso, Trump afirmou que conversará com o presidente brasileiro. De acordo com o próprio Trump, Lula teria pedido que ele não tomasse partido na disputa eleitoral.
A orientação do governo brasileiro aos seus auxiliares é clara: não alimentar polêmicas em torno da fuga de Flávio Bolsonaro e manter uma postura pragmática. A reeleição de Lula é vista como um fortalecimento, dispensando a necessidade de pressionar Trump por um reconhecimento formal da vitória, que ainda não ocorreu.
Legado eleitoral e dispersão da oposição
Um integrante do alto escalão do governo avalia que a fuga de Flávio Bolsonaro foi um ato tão absurdo que não deveria ter potencial para gerar uma crise para Lula. A análise interna sugere que a atitude do senador tende a dispersar seu eleitorado, que somou 59,8 milhões de votos no primeiro turno da eleição presidencial. A oposição, por sua vez, precisará construir uma nova opção de poder para as próximas eleições.
Diversos aliados de Lula consideram a saída de Flávio Bolsonaro benéfica para o presidente reeleito. Em seu aniversário, Lula citou o episódio como um dos mais vergonhosos da história do Brasil. A percepção é que o senador abandonou um “patrimônio eleitoral imenso” e desorganizou a oposição, que agora enfrenta o desafio de apresentar um nome forte e incontestável para disputar futuras eleições presidenciais contra o grupo de Lula.