Eleitores indecisos definem voto no 2º turno, mas insatisfação com Lula e Bolsonaro persiste, revela pesquisa
Dez eleitores de diferentes regiões e profissões, que eram indecisos em março, agora têm preferência definida para o segundo turno, mas a satisfação não é um sentimento unânime. As conversas ao longo de sete meses mostram que dificuldades no trabalho, a manutenção de programas sociais e a falta de serviços públicos foram fatores decisivos, assim como a forte rejeição ao PT e ao bolsonarismo.
Essa série de acompanhamento individual, sem representatividade estatística, detalha as complexas jornadas de escolha. As histórias revelam que, para muitos, a decisão final envolveu equilibrar necessidades básicas com a aversão a um dos candidatos, conforme aponta a pesquisa.
Da esperança de nova liderança à escolha por Lula, a saga de um agricultor
José Marques, agricultor de Bocaiuva (MG), esperava por uma nova liderança e votou em Ronaldo Caiado no primeiro turno. Contudo, para o segundo turno, sua escolha recaiu sobre Lula. A decisão foi motivada pela preocupação com as famílias pobres da sua região, onde a sobrevivência muitas vezes depende de auxílios governamentais.
“Eu moro numa região de gente muito pobre, sabe, queira ou não, aí não foge disso”, afirma José, ressaltando que vê no atual presidente uma maior garantia de manutenção dos programas sociais. “E quem pode garantir, pelo menos até agora, é o Lula. Pra muita gente é questão de sobrevivência, não é questão de luxo, de vaidade, não, sabe?”
Serviços públicos e renovação impulsionam voto em Bolsonaro para cacique indígena
Por outro lado, o cacique Baré Rui Leno Macedo de Moraes, de Barcelos (AM), prioriza a falta de serviços públicos, mas fez a escolha oposta. Ele votou em Flávio Bolsonaro e pretende repetir o voto, buscando propostas de renovação e redução de impostos.
Rui contesta a ideia de que ser indígena signifique apoiar o PT, defendendo que a proteção ambiental deve vir acompanhada de serviços essenciais para as comunidades, que, segundo ele, estão “abandonadas”. O cacique se declara de direita, mas não bolsonarista, comparando a força do bolsonarismo a uma grande torcida.
Empreendedor busca alternância, mas desconfia de ambos os candidatos
O empresário Renato Lucas da Silva, de São José dos Campos (SP), foca na necessidade de manter seu negócio, pagando salários e impostos. Ele critica promessas de perdão de dívidas, afirmando que prefere “comprar e vender e receber direitinho”.
Embora em setembro eleitores indicassem preferência por Lula, Renato votou em Renan Santos no primeiro turno e agora opta pelo senador do PL para promover a alternância de poder, apesar de desconfiar profundamente dele. “Eu acredito muito pouco no Flávio Bolsonaro. E acredito muito menos no Lula”, declarou, criticando duramente o debate da Band como “um lixo”.
Insatisfação com discurso e falta de propostas marcam escolhas no segundo turno
A auxiliar de cozinha Ednilza Jacinto de Oliveira, de Peruíbe (SP), inicialmente pretendia votar em Augusto Cury, mas acabou escolhendo Flávio Bolsonaro influenciada por uma conhecida na igreja. Apesar do voto, Ednilza expressa insatisfação com a postura do candidato em entrevistas, percebendo que ele “enrola muito, desconversa”.
A líder de atendimento Magali Barros, de São Paulo (SP), mudou sua percepção sobre Flávio Bolsonaro. Inicialmente anti-PT, ela agora o vê como uma opção mais viável. Contudo, critica discursos baseados no medo e acompanha com apreensão o debate sobre a escala 6×1.
O professor aposentado Almir Barros Costa, de Salvador (BA), cobra melhorias na educação e sente que Lula “tá sem gana, sem vontade”. Mesmo assim, ele torce pela reeleição do petista, principalmente por sua avaliação negativa de Flávio Bolsonaro, que, segundo ele, “só fica baseado no pai dele”.
A psicóloga Agda Abreu, de Senhor do Bonfim (BA), mantém seu voto em Lula, apesar de críticas ao governo, por não enxergar alternativas aceitáveis à direita. O agrimensor Nissen Cabral Jr., de Dourados (MS), decidiu votar em Lula, valorizando a defesa dos direitos humanos e a preservação ambiental, mas critica o ambiente de polarização.
Dados do Datafolha deste sábado (24) reforçam essa dualidade: entre os que escolheram um finalista, 74% o consideram o melhor candidato, enquanto 16% votam principalmente para derrotar o adversário. A pesquisa aponta um empate técnico, com Flávio Bolsonaro tendo 51% dos votos válidos e Lula 49%, com margem de erro de dois pontos percentuais.
Abstenção e voto nulo como formas de protesto
Nem todos comparecerão às urnas. A supervisora comercial Sandra Roque, de São Paulo (SP), que votaria em Flávio Bolsonaro, não poderá votar por estar viajando. Ela chegou a cogitar o voto nulo devido à decepção com as candidaturas.
O cartunista André Guedes, do Rio de Janeiro (RJ), também não votará. Com o título eleitoral cancelado, ele pretende anular seu voto, expressando sua insatisfação com ambos os projetos políticos. “Eu pensei muito durante a campanha, mudei de ideia várias vezes, mas eu vou de nulo mesmo”, escreveu.