PM de SP detalha suposto descumprimento de ordem judicial e ameaças em ato de campanha de Lula na Paulista
Um relatório interno da Polícia Militar de São Paulo acusa a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e órgãos do governo federal, como a Polícia Federal e o GSI (Gabinete de Segurança Institucional), de terem obstruído vias importantes da capital paulista na véspera do primeiro turno das eleições presidenciais. O documento alega que as ações descumpriram uma decisão do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e que houve ameaças por parte de apoiadores do então candidato contra o efetivo policial.
O incidente ocorreu em 3 de outubro, quando a Justiça Eleitoral autorizou uma caminhada de Lula até a Praça Roosevelt, mas com a condição expressa de que a Avenida Paulista e a Rua Augusta não fossem bloqueadas. A organização do evento e a PM, subordinada ao governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), divergiram sobre o cumprimento dessas determinações, gerando tensão.
O relatório, datado de 9 de outubro e assinado pelo major Maurício Bijarta Ferraioli, comandante do efetivo policial no local, foi encaminhado ao TRE para as providências cabíveis. Segundo o documento, a PM tentou dialogar com representantes do GSI e da campanha de Lula para garantir o cumprimento da ordem judicial, mas as tentativas teriam sido frustradas.
Desrespeito à ordem judicial e obstrução das vias, segundo a PM
De acordo com o major Ferraioli, a Avenida Paulista teve duas faixas bloqueadas com grades a partir das 9h do dia do evento. Ele relata que, ao tentar apresentar a decisão do TRE a um servidor do GSI, identificado como major Eliezer, foi informado que o assunto deveria ser tratado com superiores. O comandante da PM afirma que militares do GSI e representantes da campanha de Lula não acataram suas orientações para ampliar o espaço público e permitir o avanço dos carros de som pela Rua Augusta, o que, segundo ele, gerou aglomeração na Paulista.
“Tivemos desrespeito a ordem judicial e descumprimento das determinações operacionais por parte da Polícia Militar, além de indícios de outros fatos graves”, afirma Ferraioli em seu relatório. Ele também menciona que uma viatura da Polícia Federal foi posicionada estrategicamente para impedir o deslocamento de um carro de som, contrariando as solicitações da PM.
Ameaças e intimidação contra o efetivo policial
O relatório policial também descreve um clima de hostilidade e intimidação. O major Ferraioli alega ter sido ofendido pelo advogado Marco Aurélio Carvalho, um dos coordenadores da campanha de Lula. Além disso, o oficial relata que organizadores do evento teriam incentivado manifestantes a protestar contra a própria Polícia Militar.
Diante da escalada da tensão e sentindo-se ameaçado, o major Ferraioli afirma que tomou a decisão de se retirar do local após cerca de duas horas de impasse. “Devido ao fato de os organizadores estarem potencializando cada vez mais as ameaças contra a minha pessoa e contra os policiais militares que me acompanhavam, decidi sair daquele local”, escreveu o oficial em seu documento.
Versões divergentes sobre os acontecimentos
O advogado Marco Aurélio Carvalho, por outro lado, refuta as acusações e defende que sua atuação visava impedir o que ele descreve como “a truculência” da tropa policial. Carvalho contrasta o comportamento do coronel Rogério Miranda, que atuava para a campanha de Lula, como “elegante e educado”, com o do major Ferraioli, a quem classificou como “truculento” e sem controle, alegando que o oficial teria agredido ele e outros cidadãos.
Em nota, o GSI reiterou que sua função é garantir a segurança do presidente e vice-presidente, mesmo em eventos eleitorais. O órgão informou que, ao tomar conhecimento da decisão judicial, adotou medidas para cumpri-la, estabelecendo um espaço restrito para a proteção da chegada das autoridades presidenciais e, posteriormente, reajustando o dispositivo conforme a determinação do TRE-SP.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo declarou que comunicou as condições impostas pelo TRE aos organizadores e orientou o deslocamento dos carros de som para manter as vias livres, conforme a determinação judicial. A Polícia Federal, ao ser contatada, não se manifestou sobre o ocorrido.