Programa Mundial de Alimentos (PMA) enfrenta grave crise financeira e se vê forçado a reduzir drasticamente assistência humanitária em Gaza, impactando centenas de milhares de pessoas necessitadas.
O Programa Mundial de Alimentos (PMA), agência da ONU, divulgou um comunicado alarmante nesta segunda-feira (19), informando que será obrigado a **reduzir suas operações humanitárias na Faixa de Gaza**. Essa medida impactará diretamente a vida de aproximadamente **500.000 pessoas que deixarão de receber assistência alimentar mensalmente** no território palestino, já severamente afetado pela guerra.
A decisão, descrita como dolorosa pela organização, é uma consequência direta da **”escassez de financiamento”**, conforme detalhado em nota oficial. A falta de recursos financeiros compromete a capacidade do PMA de continuar fornecendo o suporte essencial para a sobrevivência da população em Gaza, que vive em condições humanitárias extremamente precárias desde o início da ofensiva israelense em resposta aos ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023.
Shaun Hughes, diretor do PMA nos territórios palestinos, explicou que essas são decisões difíceis, mas necessárias para **”garantir que nossos recursos durem o maior tempo possível”**. Ele enfatizou a urgência da situação, declarando que “não é o momento de desviar o olhar do que acontece em Gaza”, onde quase 1,4 milhão de pessoas, de um total de 2,1 milhões, enfrentam insegurança alimentar aguda e dependem de ajuda humanitária para sobreviver.
Impacto Direto e Redução de Pacotes de Alimentos
A redução da assistência não se limitará apenas ao número de beneficiários. O PMA também precisará **cortar pela metade a quantidade de alimentos distribuídos por família**. Isso significa que, em vez de receberem dois pacotes de alimentos, as famílias passarão a ter direito a apenas um. Além disso, o tamanho do saco de farinha de trigo distribuído será menor.
As consequências se estendem a outros programas de apoio. O número de refeições quentes servidas diariamente cairá de 250.000 para 150.000. A ajuda em dinheiro, destinada à compra de alimentos para 75.000 famílias, também será significativamente reduzida, passando de 1.250 para 750 shekels (aproximadamente de R$ 2.200 para R$ 1.300 na cotação atual) por mês.
Financiamento Insuficiente e Cortes Anteriores
O PMA, que depende de doações de governos e doadores privados, tem enfrentado uma **queda acentuada em seus recursos**. O texto aponta que, entre outros fatores, a redução das contribuições de governos e a diminuição da ajuda bilateral impactaram o financiamento. A agência estima que necessitará de quase 450 milhões de dólares nos próximos seis meses para suas operações em Gaza e na Cisjordânia, mas em 2026 recebeu apenas metade do financiamento usual para os territórios palestinos.
Essa não é a primeira medida de corte. Em setembro, o PMA já havia **reduzido pela metade o número de beneficiários da ajuda na Cisjordânia**, passando de 400.000 para 200.000 pessoas. A escassez de recursos impõe um dilema humanitário, forçando a organização a tomar decisões que afetam diretamente a vida de populações vulneráveis em zonas de conflito.
Contexto de Fome e Crise Humanitária
Vale lembrar que em agosto de 2025, a Classificação Integrada de Segurança Alimentar (IPC) da ONU chegou a declarar **situação de fome em Gaza**. Embora em dezembro as Nações Unidas tenham retirado essa classificação, graças a um cessar-fogo e ao aumento do envio de ajuda, a situação humanitária continua extremamente delicada. A capacidade do PMA de intensificar a assistência, chegando a ajudar entre 1,5 e 1,8 milhão de pessoas mensalmente, foi um “salva-vidas”, como descreveu Hughes.
No entanto, o cenário atual é de retrocesso. “Em vez de podermos manter e ampliar a ajuda, nos vemos, na realidade, obrigados a reduzi-la”, lamentou Hughes, ressaltando que a limitação **”não é porque não tenhamos acesso humanitário para distribuir alimentos, e sim porque não contamos com financiamento”**. A falta de recursos financeiros se configura como o principal obstáculo para a continuidade da assistência vital em Gaza.