Traficantes mexicanos reinventam produção de metanfetamina para escapar da lei
A indústria de drogas sintéticas no México demonstra notável capacidade de adaptação. Pressionados por autoridades mexicanas e dos Estados Unidos, cartéis estão reconfigurando suas operações, buscando novas estratégias para manter o lucrativo mercado de metanfetamina em expansão.
A descoberta de um mega laboratório de metanfetamina em Chihuahua, capaz de produzir até 100 quilos por dia, reacendeu o debate sobre a força dessas organizações. Apesar da intensificação das operações de combate ao narcotráfico, a resiliência dos cartéis é evidente em suas novas táticas.
Enquanto o mercado de fentanil mostra sinais de retração, a metanfetamina continua a prosperar. Isso se deve, em grande parte, a métodos de fabricação mais econômicos e à demanda persistente tanto nos Estados Unidos quanto no próprio México. Conforme informações divulgadas pela governadora de Chihuahua, María Eugenia Campos, a apreensão naquele estado impediu a chegada de cem mil doses diárias da droga às ruas.
A estratégia de miniaturização e diversificação geográfica
Especialistas como o analista político David Saucedo explicam que a mudança na estratégia dos cartéis mexicanos é uma resposta direta à pressão exercida pelos Estados Unidos. Inicialmente, houve um investimento em complexos industriais clandestinos para suprir a demanda, reduzindo a dependência da cocaína colombiana.
No entanto, diante da ameaça de ataques diretos a essas grandes instalações, os grupos criminosos passaram a optar por laboratórios menores, com poucos metros quadrados, em locais mais isolados. Essa tática dificulta a localização e a ação das forças policiais.
Saucedo acrescenta que, em um movimento ainda mais ousado, parte das “cozinhas” de drogas foram transferidas para áreas urbanas. A intenção seria aumentar o risco de mortes civis em caso de um ataque, elevando o custo político e midiático para os Estados Unidos.
Produção de metanfetamina: o domínio do P2P e a busca por insumos
A fabricação de metanfetamina no México ganhou um novo patamar com o domínio do método de produção que utiliza o precursor químico P2P. Segundo José Andrés Sumano Rodríguez, pesquisador do Colégio da Fronteira Norte, essa técnica permitiu aos traficantes deixarem de depender de substâncias controladas como a pseudoefedrina, facilitando a produção em larga escala.
O P2P é um insumo mais barato e menos regulamentado, o que contribui para a expansão do mercado de metanfetamina. Contudo, o gargalo principal ainda reside na disponibilidade de precursores químicos vindos da Ásia e na mão de obra especializada, os chamados “cozinheiros”.
Ainda que as mortes por overdose de fentanil tenham diminuído nos EUA, o cenário da metanfetamina é outro. Rodríguez observa que o mercado está mais abastecido, com produtos de maior pureza e apreensões recordes. Esse aumento na repressão no México não tem se traduzido em menor disponibilidade da droga nos EUA, e o consumo interno mexicano também cresceu consideravelmente.
A pressão dos EUA e os desafios da fiscalização mexicana
O governo mexicano, sob a presidência de Claudia Sheinbaum, tem intensificado o combate ao narcotráfico, respondendo à crescente pressão dos Estados Unidos. De acordo com o secretário de Segurança, Omar García Harfuch, mais de 2.771 laboratórios clandestinos foram desmantelados desde outubro de 2024.
Apesar dos esforços, Rodríguez avalia que os resultados ainda são aquém do esperado. Ele sugere que o foco deveria ser nos pontos mais vulneráveis da cadeia produtiva, como o fornecimento de precursores e a formação de “cozinheiros”.
David Saucedo critica a divulgação apenas de números absolutos de laboratórios fechados, sem estimativas do total existente, o que dificulta a avaliação do impacto real das operações. David Mora, analista sênior para o México do International Crisis Group, recomenda cautela, pois a categoria “locais ou áreas de concentração” pode incluir depósitos e pontos de transporte, não apenas fábricas.
Mora enfatiza a importância de que cada apreensão e desmantelamento de laboratório seja acompanhado por investigações judiciais profundas. O objetivo é atingir não só as estruturas físicas, mas toda a rede criminosa por trás da produção e distribuição de drogas, garantindo que as prisões resultem em desmantelamento efetivo das redes de produção.