A ‘Casa das Irmãs’: Rumor de Sequestro que Abalou a Síria
Uma história sobre um lugar chamado ‘Casa das Irmãs’, onde supostamente mulheres são sequestradas e forçadas a se converter ao islamismo, tem gerado grande tensão na Síria. A veracidade da existência desse local é incerta, mas o rumor se espalhou rapidamente, alimentando medos e divisões em um país ainda se recuperando do regime de Assad.
O medo provocado por essa narrativa levou pessoas como Layla, professora de matemática e mãe de três filhos, a deixar sua casa em Damasco. Pertencente à minoria alauita, a mesma seita do ex-ditador Bashar al-Assad, ela e sua família se sentiram ameaçados por grupos que os viam como aliados do regime, mesmo que tivessem motivos para odiá-lo.
A ameaça velada de que sua filha poderia ser levada para a ‘Casa das Irmãs’ caso continuasse com suas aulas de piano e dança foi o estopim para a decisão de Layla de buscar segurança no Líbano. A história de Layla, divulgada pela DW, reflete o pânico que se instalou em parte da população, especialmente entre as minorias religiosas, em meio a um cenário de instabilidade política e social.
O Desaparecimento de Batoul Alloush e a Propagação do Boato
A repercussão sobre a ‘Casa das Irmãs’ ganhou força em maio, após o desaparecimento da estudante universitária alauita Batoul Alloush. Sua família relatou um possível sequestro, mas Batoul reapareceu dias depois, vestida com trajes religiosos, afirmando ter deixado a família voluntariamente para se converter ao islamismo. Este caso, somado a outros relatos de desaparecimentos, principalmente de mulheres alauitas, alimentou a narrativa da ‘Casa das Irmãs’.
A psicóloga Reham Suleiman, que atua com a comunidade alauita, confirmou à DW ter conhecimento de vários casos de sequestro. No entanto, ela ressalta que nem todos os desaparecimentos se encaixam na narrativa da ‘Casa das Irmãs’, apontando que alguns podem ter sido motivados por resgate, vingança, casamentos forçados, ou mesmo pela fuga de mulheres de suas famílias, buscando liberdade ou um novo relacionamento.
As próprias autoridades sírias, através do Ministério de Assuntos Sociais, negaram a existência de qualquer instituição licenciada com o nome ‘Casa das Irmãs’. Agências de checagem de notícias, como a Verify-Sy, revelaram que fotos que circularam online como sendo do suposto local foram criadas com inteligência artificial, evidenciando a disseminação de desinformação.
Instrumentalização Política e Danos Reais
Apesar da falta de evidências concretas, a narrativa da ‘Casa das Irmãs’ tem sido explorada por diversos grupos com agendas políticas. A Shaam News Network (SNN) apontou que plataformas de redes sociais divulgaram o boato como um fato comprovado, integrando-o a narrativas mais amplas sobre o suposto ‘sequestro organizado’ de mulheres alauitas. Esse tipo de desinformação visa instigar medo e isolar a comunidade alauita.
Organizações como o Mecanismo de Investigação Sírio (SIM) e a União dos Alauitas Sírios na Europa (USAE) têm sido ativas na divulgação de informações sobre a ‘Casa das Irmãs’, associando-a a atividades de proselitismo e coerção. O diretor do SIM, Yasir Saleti, que reside na Alemanha, chegou a alegar a existência de ‘engenharia demogrâmica’.
Gregory Waters, pesquisador sênior do Atlantic Council, explica que esse tipo de informação, mesmo sem base real, causa danos significativos. A propaganda online se aproveita de medos existentes nas comunidades minoritárias, inflama tensões e pode ser usada para isolar grupos, dificultando a reconciliação e a estabilidade no país. A Verify Sy, em suas auditorias mensais sobre desinformação, aponta o incitamento como um dos objetivos mais comuns da propaganda online na Síria.
Busca por Estabilidade e o Papel da Economia
Enquanto a desinformação circula, as autoridades sírias enfrentam o desafio de controlar a disseminação de notícias falsas, especialmente aquelas originadas no exterior. A comunidade síria, assim como em qualquer lugar do mundo, abriga uma diversidade de opiniões sobre a situação do país e das relações entre as comunidades.
Naseef Naeem, diretor de pesquisa da Fundação Candid, acredita que a recuperação econômica da Síria pode ser fundamental para a melhoria das relações entre as comunidades. O fortalecimento da economia e a estabilidade das instituições são vistos como passos essenciais para mitigar tensões e promover um diálogo nacional mais amplo. O boom turístico recente em áreas costeiras, de maioria alauita, é um exemplo de como a interação positiva entre diferentes grupos pode ocorrer em um ambiente de segurança e estabilidade, sem relatos de assédio ou violência, segundo Waters.