Augusto Cury: Da escrita à política, um fenômeno viral que divide opiniões
O cenário político brasileiro tem sido agitado com o ascensão meteórica de Augusto Cury, candidato à Presidência. Em poucas semanas, o escritor inundou as redes sociais, especialmente o Instagram, com uma onda de apoio orquestrada por influenciadores. Essa movimentação digital não só disparou seu número de seguidores, mas também se refletiu em pesquisas de intenção de voto, colocando-o em posições de destaque e gerando desconfiança entre campanhas adversárias.
A estratégia de Cury nas redes sociais tem sido alvo de intensos debates. Enquanto sua equipe defende um crescimento orgânico e uma comunicação direta com o eleitorado cansado da polarização, opositores levantam suspeitas de irregularidades, cogitando até mesmo uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para investigar o caso. A legislação eleitoral proíbe a contratação de indivíduos ou empresas para realizar propaganda online.
Analistas apontam que a postura ideologicamente ambígua de Cury, combinada com sua expertise em autoajuda, tem atraído um eleitorado que busca alternativas aos candidatos tradicionais. Essa combinação, segundo especialistas, pode explicar o rápido crescimento e a atenção que o escritor tem recebido, configurando um novo capítulo na relação entre influenciadores digitais e a política brasileira.
Ascensão meteórica nas redes sociais
Em um período de apenas duas semanas, entre 16 e 29 de agosto, Augusto Cury acumulou impressionantes 2,5 milhões de novos seguidores no Instagram. Este número o coloca muito à frente de outros candidatos como Flávio Bolsonaro, que obteve cerca de 280 mil, Renan Santos, com 158 mil, e o presidente Lula, com quase 100 mil. Os dados são parte de um relatório recente do Instituto Democracia em Xeque (DX).
O pico de crescimento foi registrado em 27 de agosto, quando 1,2 milhão de novos seguidores aderiram ao perfil de Cury. No dia anterior, quase 700 mil pessoas o seguiram, e entre sexta (28) e sábado (29), ele ganhou quase 400 mil. Embora tenha havido uma pequena perda de seguidores no final de semana seguinte, o impacto inicial foi avassalador.
Reflexo em pesquisas e desconfiança de adversários
A força de Cury nas redes sociais se traduziu em resultados expressivos em pesquisas de intenção de voto. No levantamento BTG/Nexus, ele apareceu em terceiro lugar, com 11% das intenções, um aumento de nove pontos percentuais em relação à semana anterior. Já na pesquisa Atlas/Bloomberg, Cury empatou na terceira posição com Renan Santos, ambos com 7,8% dos votos.
Esses números geraram reações entre campanhas adversárias, que levantam a hipótese de que a equipe de Cury teria pago influenciadores para promover sua candidatura. Há avaliações para ingressar com uma ação no TSE para investigar essa prática, pois a legislação eleitoral proíbe explicitamente a contratação de pessoas físicas ou jurídicas para propaganda online.
A defesa da campanha de Cury
A equipe de Augusto Cury nega veementemente qualquer irregularidade. Sergio Lima, marqueteiro da campanha, afirma que, se houvesse irregularidades, o reflexo nas pesquisas não seria tão positivo e tudo seria “fake”. Ele desafia a levar o caso ao TSE, declarando que “não tem problema nenhum”.
Em sua agenda pública, Cury negou o uso de robôs e declarou que investiu menos em redes sociais do que seus adversários. Ele atribui seu crescimento a “milhões de pessoas que acreditam na pacificação e estão cansadas desta polarização insana”, descrevendo o fenômeno como uma “revolução totalmente silenciosa”.
Lima explica que a estratégia da campanha focou em conversar com eleitores indecisos, algo que, segundo ele, os adversários não conseguiram fazer devido ao tom de “xingamentos”. A campanha teria enviado vídeos de agradecimento do próprio Cury, gerando uma vasta rede de apoio que atraiu até grandes influenciadores.
Ambiguidade ideológica e o fenômeno “coach”
Augusto Cury, conhecido por seus livros de autoajuda e saúde mental, possui o maior patrimônio declarado entre os presidenciáveis em 2026, com mais de R$ 242 milhões. Sua posição ideológica ambígua tem sido apontada como um fator chave para atrair eleitores descontentes com a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro.
O cientista político Jorge Chaloub, da UFRJ, destaca que Cury se beneficia da rejeição aos candidatos mais estabelecidos. Sua fala no debate, ao se contrapor à agressividade de Renan, sem assumir uma identidade de direita clara, e a adoção de um discurso com traços de autoajuda, o distinguem dos demais.
Chaloub compara Cury a figuras como Pablo Marçal, explorando a figura do “coach” bem-sucedido para convencer eleitores de sua capacidade de gerir a política, assim como fazem em suas vidas pessoais. Marçal, inclusive, manifestou apoio a Cury, o que intensificou especulações sobre sua possível participação nos bastidores da campanha.
Apoio de influenciadores e críticas pontuais
O apoio a Cury veio de influenciadores de diversos nichos, como estilo de vida, saúde e entretenimento. As mensagens frequentemente seguem um padrão, com eleitores que se diziam indecisos afirmando ter encontrado seu candidato. Uma checagem revelou que muitas dessas páginas não possuíam histórico recente de publicações políticas.
Até mesmo pintores de obra, como Juliano Alcântara, com 270 mil seguidores, divulgaram vídeos declarando voto em Cury após conhecerem seu “currículo pesado”. Notícias sobre o escritor também circularam em páginas de notícias regionais e perfis de fofoca, um método já utilizado para promover figuras políticas, como noticiado anteriormente pela Folha.
No entanto, no Twitter, o movimento foi de rejeição, com deboches às propostas de Cury. Em aplicativos de mensagem, como noticiado pela coluna Encaminhado com Frequência, ele registrou “o maior índice de mensagens enviadas por usuários com comportamento automatizado” entre os candidatos.