Especialista descarta declaração de Trump sobre Estreito de Ormuz como território americano, classificando-a como manobra política.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, causou alvoroço ao afirmar que pretende declarar o Estreito de Ormuz como território americano. A declaração foi feita durante uma convenção em Nova York, gerando debates sobre suas reais intenções e o impacto geopolítico.
No entanto, a opinião de especialistas diverge da retórica presidencial. Thiago de Aragão, CEO da Arko Advice Internacional, avaliou a fala de Trump como uma estratégia deliberada para moldar a narrativa e desviar o foco de questões mais complexas e negativas para sua administração.
A complexa situação no Estreito de Ormuz, uma via marítima crucial para o transporte de petróleo, tem sido palco de crescentes tensões. A declaração de Trump surge em um momento delicado, com incidentes envolvendo embarcações e a queda drástica no tráfego marítimo. Conforme informações divulgadas, 54 navios já relataram danos ao transitar pela região, e o número de embarcações diárias despencou de 120 para apenas 14 na última semana.
Declaração de Trump é tática para gerar narrativa, diz especialista
Thiago de Aragão foi enfático ao analisar a declaração de Trump sobre o Estreito de Ormuz. “Nada, nada. Isso é uma coisa sem pé nem cabeça”, afirmou, comparando-a a outras declarações anteriores do presidente, como a de que o Canal do Panamá voltaria ao controle americano ou a anexação da Groenlândia.
Segundo o especialista, esse tipo de fala é uma técnica deliberada de geração de narrativa. “Quando ele gera narrativa, a imprensa, os analistas, principalmente o Partido Democrata, fala daquilo que ele comentou e não necessariamente das outras coisas”, explicou Aragão.
O CEO da Arko Advice destacou que, no momento da declaração, Trump enfrentava dois temas centrais que poderiam gerar atenção negativa: a demora na resolução do conflito com o Irã e a situação do navio USS Abraham Lincoln, que estava há mais de 200 dias sem atracar.
Crise no Estreito de Ormuz afeta economia global e popularidade de Trump
Relatos sobre problemas de saúde mental de marinheiros e condições precárias a bordo do USS Abraham Lincoln, incluindo falta de água e comida, ganhavam repercussão na imprensa. Aragão ressalta que a declaração sobre o Estreito de Ormuz serviu para “ocupar esse espaço” midiático, afastando o debate de questões mais graves.
O fechamento parcial do Estreito de Ormuz tem tido consequências econômicas significativas. Os estoques globais de petróleo estão diminuindo, e o preço da gasolina nos Estados Unidos subiu para US$ 4,07 por galão na última sexta-feira, um aumento considerável em relação ao mês e ao ano anteriores. Trump, no entanto, minimizou o impacto, classificando-o como “um pequeno preço a se pagar pelo conflito”.
Apesar da postura do presidente, uma pesquisa recente da CNN indicou que 74% dos americanos consideram que a guerra não vale o custo em vidas nem o peso financeiro para o governo. Aragão descreve a administração Trump como operando em modo de “apagar incêndios”, muitas vezes autogerados, sem conseguir manter uma agenda baseada em planejamento original.
Administração Trump em modo de “apagar incêndios”
O especialista conclui que “nada do que hoje requer a atenção do governo americano gira ao redor daquilo que foi planejado”, o que compromete a previsibilidade do governo tanto para eleitores quanto para aliados e mercados internacionais.
A estratégia de Trump de utilizar declarações polêmicas sobre o Estreito de Ormuz e outras questões internacionais parece ser uma forma de controlar a narrativa e direcionar o foco da opinião pública e da mídia, enquanto questões internas e conflitos externos continuam a desafiar sua administração.