Casamentos arranjados e indenizações milionárias: O lado sombrio da guerra na Ucrânia para famílias russas
A filha de um soldado russo, que morreu na Ucrânia, descobriu com choque que seu pai, de 59 anos, havia se casado apenas dois dias antes de ser enviado para o combate. Maria, que não conhecia a noiva, ficou arrasada ao saber que a mulher, 22 anos mais jovem, se tornou a parente legal mais próxima, com direito a uma indenização de 5 milhões de rublos, aproximadamente R$ 329 mil.
Este caso, que a CNN está relatando com o primeiro nome da filha por questões de privacidade, expõe uma crescente preocupação na Rússia: a exploração de soldados vulneráveis por golpistas, apelidadas de “viúvas negras”. Essas mulheres estariam se casando com homens prestes a ir para a guerra para garantir o recebimento de indenizações em caso de morte, excluindo os verdadeiros parentes.
A prática tem gerado indignação e apelos por uma repressão oficial, especialmente em um contexto de dificuldades econômicas e crescentes baixas militares. A facilitação de casamentos rápidos para soldados, incentivada pelo governo, também abriu portas para esses esquemas fraudulentos. A reportagem da CNN busca entender a dimensão deste problema e os impactos devastadores para as famílias que perdem seus entes queridos e, ainda por cima, são excluídas das compensações financeiras. Conforme informações divulgadas pela CNN.
Casamentos de conveniência e a promessa de indenização
Quando um soldado russo morre em combate, seus parentes mais próximos recebem uma indenização única do exército. Esse valor, que pode ultrapassar 5 milhões de rublos (cerca de R$ 329.000), visa garantir o amparo financeiro às famílias. No entanto, há um número crescente de relatos na Rússia sobre o abuso desse benefício por parte de indivíduos mal-intencionados.
Essas pessoas, muitas vezes chamadas de “viúvas negras” pela mídia estatal e autoridades russas, estariam enganando homens vulneráveis para que se casem com elas. Logo após o casamento, os homens são enviados para a guerra. Se eles morrem em combate, a “viúva” reivindica a indenização, excluindo outros parentes legítimos, como filhos ou pais.
“Viúvas negras” e o mercado imobiliário
Histórias de recrutas seduzidos para o casamento antes de morrerem nas linhas de frente têm chocado a sociedade russa. Em um caso noticiado, uma enfermeira de hospital militar foi demitida após ser acusada de se casar com cinco soldados sob seus cuidados, que vieram a falecer, com o objetivo de receber os benefícios por morte.
A situação se agrava com a promoção de casamentos rápidos para soldados, incentivada pelo Kremlin, que buscava fortalecer o apoio familiar e a motivação para lutar. A facilitação desses casamentos, com dispensa do período de aviso habitual, abriu brechas para golpes. Em um podcast, uma corretora de imóveis em Tomsk sugeriu cinicamente que mulheres poderiam obter dinheiro para comprar apartamentos casando-se com soldados e recebendo a indenização após a morte deles, descrevendo a prática como um “negócio”. As duas mulheres envolvidas no caso foram processadas e obrigadas a pedir desculpas.
Disputas familiares e esquemas complexos
Casos de grande repercussão chegaram aos tribunais, como a disputa entre a mãe de um soldado e sua recém-casada esposa. O soldado, Georgy Kostyrko, casou-se com Angelina Varyukhina dez dias após conhecê-la online. Após o retorno dele à frente de batalha, a esposa teria postado fotos com outros homens, levando-o a pedir o divórcio. Ele foi morto antes da finalização do processo, deixando Varyukhina como beneficiária da indenização.
Varyukhina contestou as acusações, afirmando que as imagens eram para provocar ciúmes e que eles haviam se reconciliado. Embora o status de parente mais próximo dela tenha sido revertido judicialmente, o escândalo gerou indignação generalizada. Há também alegações de envolvimento de membros das forças de segurança russas em esquemas de “viúvas negras”, conspirando para enviar maridos recém-recrutados para missões perigosas em troca de uma parte da indenização.
O drama de Maria e a perda de tudo
De volta a São Petersburgo, Maria visitou o antigo apartamento de seu pai, agora vendido. Ela acredita que ele também foi enganado, perdendo sua casa. Os novos proprietários afirmam que a venda foi legítima e que nunca conheceram o vendedor. No entanto, o dinheiro e a viúva desapareceram.
“Não sobrou absolutamente nada, e isso é incrivelmente doloroso”, disse Maria, entre soluços. Ela lamenta não ter sequer um objeto que a lembre do pai, apenas as chaves de um apartamento que não funciona mais. A história de Maria ilustra a dor e a perda que vão além da morte, com a exclusão de direitos e a exploração em tempos de guerra.