Ucrânia intensifica ataques a centros logísticos russos, mirando a Wildberries e impactando economia local
Drones ucranianos voltaram a atacar centros de distribuição da Wildberries, a maior varejista online da Rússia, provocando destruição, mortes e um rastro de incerteza para centenas de pequenos e médios empresários russos. A ofensiva, que já vinha atingindo refinarias de petróleo, agora mira a cadeia logística, com a alegação de que esses locais são utilizados para o suprimento do exército russo.
A estratégia ucraniana de atingir rotas de abastecimento e instalações logísticas tem como objetivo primordial interromper o fluxo de equipamentos militares para as tropas russas. No entanto, a ação também tem um impacto direto e doloroso na vida de milhares de vendedores que dependem das plataformas de comércio eletrônico para sua subsistência, aproximando a guerra da realidade cotidiana de muitos pela primeira vez.
Relatos nas redes sociais descrevem o desespero de empreendedores que viram seus negócios serem dizimados. “Sou mãe de uma criança com deficiência e construí esse negócio sozinha”, desabafou uma mulher em uma publicação viral, expressando a perda de cerca de 1 milhão de rublos (aproximadamente R$ 65 mil) e o sentimento de estar sendo “ferrada de todos os lados”. Conforme informações divulgadas, a Ucrânia intensificou ataques com drones de longo alcance.
O Impacto Devastador dos Ataques à Wildberries
Os ataques mais recentes ocorreram em fins de semana e madrugadas. Em um dos primeiros incidentes, dois centros de distribuição foram atingidos: um em Elektrostal, próximo a Moscou, e outro em Kotovsk, na região de Tambov. O ataque em Kotovsk resultou na morte de sete funcionários do turno da noite, enquanto em Elektrostal, um outro funcionário faleceu. Dezenas de feridos e um prejuízo estimado em cerca de R$ 5,1 bilhões com mercadorias destruídas foram reportados.
A Wildberries, juntamente com sua concorrente Ozon, é vital para a economia russa, sendo utilizada por uma parcela significativa da população economicamente ativa, estimada entre 85% e 90%. Em regiões remotas, onde o comércio físico é escasso, essas plataformas são o principal canal para a aquisição de uma vasta gama de produtos, desde vestuário a eletrodomésticos.
Novos ataques foram registrados em outros centros logísticos, incluindo instalações em Koledino, ao sul de Moscou, e em Krasnodar e Nevinnomyssk, na região de Stavropol. A proprietária da Wildberries, Tatiana Kim, confirmou que esses ataques também resultaram em mais vítimas.
A Guerra Chega aos Vendedores Independentes
A Rússia, desde o início da invasão em larga escala em fevereiro de 2022, tem utilizado drones e mísseis contra cidades ucranianas, atingindo armazéns e terminais de carga. Em resposta, a Ucrânia tem intensificado sua campanha de drones contra a infraestrutura russa. A linha de frente estagnada tem levado a Ucrânia a focar em rotas de abastecimento e instalações de energia, o que já resultou no isolamento da Crimeia e na escassez de combustível em algumas regiões.
Empresas russas já enfrentavam dificuldades antes dos ataques aos centros de distribuição. Uma vendedora de artigos de papelaria relatou ter perdido todo o estoque enviado para o centro de Elektrostal, justamente em um período crucial para as vendas de material escolar. Outra comerciante de roupas para adolescentes informou uma perda de estoque avaliada em 1,4 milhão de rublos (aproximadamente R$ 91 mil) e decidiu suspender o envio de novos produtos.
A situação se agrava com a inclusão, nos contratos da Wildberries, de uma cláusula que considera ataques com drones como caso de força maior, isentando a empresa de responsabilidade. Embora Tatiana Kim tenha prometido apoio aos vendedores, com algumas compensações e descontos, o receio de novos ataques persiste.
Desafios Econômicos e a Resiliência das Pequenas Empresas Russas
O governo russo, sob a liderança de Vladimir Putin, tem declarado apoio às pequenas e médias empresas, vistas como um pilar na resistência às sanções ocidentais. Contudo, a realidade tem sido desafiadora. O aumento do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) para 22% em janeiro, para financiar gastos com Defesa, e a extinção de benefícios fiscais têm impactado o setor.
No primeiro trimestre de 2026, 209 mil pequenas e médias empresas encerraram suas atividades, um aumento de 9% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo a plataforma Kontur.Fokus. Apagões de internet e a repressão a aplicativos de mensagens também têm prejudicado o comércio. A crise de combustíveis, decorrente dos ataques ucranianos a instalações petrolíferas, adiciona mais um obstáculo.
Especialistas como Ruben Enikolopov, professor da Universidade Pompeu Fabra, veem os ataques aos centros de distribuição como “mais um prego no caixão” para as pequenas empresas russas, que já enfrentam inflação elevada e um crescente déficit orçamentário. Apesar da resiliência histórica, a guerra consome recursos, afetando a capacidade de crescimento da economia civil, mesmo com reservas financeiras acumuladas em tempos de paz.