O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estabeleceu nesta quinta-feira (23) uma condição política de peso para avançar com o controverso acordo nuclear que negocia com a Arábia Saudita. Em publicação na rede social Truth Social, Trump afirmou que a concretização do pacto está “totalmente sujeita” à adesão do reino saudita aos Acordos de Abraão, o que implicaria o reconhecimento formal do Estado de Israel.
O anúncio ocorre em meio a negociações de bastidores para um acordo de cooperação nuclear civil de 30 anos entre Washington e Riad. O pacto, que deverá ser anunciado ainda esta semana, permitiria à Arábia Saudita enriquecer urânio para fins não militares, mas tem gerado forte apreensão em círculos diplomáticos e no Congresso americano.
A condição de Trump e a reação israelense
Ao vincular o acordo nuclear à normalização com Israel, Trump resgatou o espírito dos Acordos de Abraão, tratados firmados em 2020 que já garantiram relações diplomáticas entre Israel e nações como Emirados Árabes Unidos e Bahrein. A iniciativa, porém, estava estagnada desde o início da guerra na Faixa de Gaza.
O gabinete do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, classificou a possível entrada da Arábia Saudita no acordo como um “avanço histórico” para a paz regional. Apesar da exigência política, Trump elogiou o conteúdo do pacto e reforçou que o enriquecimento de urânio pelo país árabe será estritamente voltado a aplicações civis.
Os termos do acordo e suas lacunas
O documento estabelece uma parceria de três décadas que dá prioridade a empresas americanas no desenvolvimento da infraestrutura nuclear saudita e abre caminho para a construção de uma instalação de enriquecimento de urânio no reino. Contudo, especialistas apontam que o texto não inclui duas salvaguardas fundamentais:
- A cláusula do “padrão ouro”, que exigiria que a Arábia Saudita renunciasse ao enriquecimento e à reprocessamento de combustível;
- O Protocolo Adicional da AIEA, que ampliaria a fiscalização internacional sobre o programa nuclear saudita.
Pela legislação americana, o acordo ainda precisará passar por uma revisão de 90 dias no Congresso, que pode aprová-lo ou rejeitá-lo, com possibilidade de veto presidencial.
Motivações sauditas e riscos regionais
O governo de Riad justifica a busca por energia nuclear como parte de uma estratégia para diversificar sua matriz energética, reduzir emissões e poupar petróleo para exportação, além de aplicações como dessalinização e refrigeração. O reino já anunciou, em janeiro de 2025, a intenção de produzir “yellowcake”, matéria-prima para combustível nuclear.
Para Washington, o acordo representa uma oportunidade de abrir um mercado bilionário para suas empresas e conter a influência de concorrentes como China e Rússia. No entanto, a medida acende alertas:
- Críticos temem que o pacto estimule uma corrida armamentista no Oriente Médio, especialmente dada a rivalidade com o Irã.
- O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman já declarou que Riad buscará armas nucleares se Teerã o fizer.
- Analistas apontam que a iniciativa pode minar a coerência do discurso americano contra o programa nuclear iraniano, justamente no momento em que a região vive um acirramento do conflito entre EUA, Israel e Irã.
O anúncio do acordo, portanto, expõe as tensões entre interesses geopolíticos, segurança regional e a busca por avanços diplomáticos históricos no Oriente Médio.