A comemoração dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, neste sábado (4), foi ofuscada por uma acirrada guerra política que transformou a data símbolo de união nacional em mais um campo de batalha cultural.
O que era para ser um momento de reflexão histórica e coesão, planejado ao longo de quase uma década, acabou dividido em duas celebrações paralelas: de um lado, a festa oficial do governo Trump, centrada em sua figura e com uma narrativa patriótica; do outro, eventos locais e uma cerimônia alternativa em Los Angeles, que buscaram exaltar a diversidade e as múltiplas faces da história americana.
A raiz do conflito está na criação, por decreto presidencial em janeiro de 2025, do grupo “Freedom 250”. Esta nova comissão, liderada por aliados do presidente, assumiu o controle das celebrações federais em Washington, esvaziando a autoridade e os recursos da comissão bipartidária “America250”, originalmente criada pelo Congresso em 2016 para coordenar as festividades.
A decisão de Trump gerou uma competição aberta por verba, patrocínios e atenção da mídia. Enquanto a “Freedom 250” recebeu US$ 68 milhões do governo e organizou um desfile militar, fogos de artifício monumentais e uma feira patriótica, a comissão do Congresso viu seus recursos federais serem cortados, tendo que se contentar com uma celebração em Los Angeles com foco na cultura e na diversidade.
“É uma festa do Trump, não dos Estados Unidos”, criticou Roberto Uebel, professor de Relações Internacionais, destacando o caráter inédito e personalista das comemorações. “Nos 200 anos e no centenário, a figura do governante nunca foi personificada. Agora, vemos o Trump no passaporte, na moeda, em todos os lugares.”
A polarização atingiu em cheio a programação cultural. Artistas como Martina McBride e Bret Michaels desistiram de se apresentar nos eventos oficiais, alegando terem sido surpreendidos pelo tom político explícito. Seus lugares foram ocupados por nomes alinhados ao universo conservador. Críticos apontam que a festa oficial promove uma “história patriótica” que ignora capítulos dolorosos do passado, enquanto defensores celebram a ênfase nos valores fundadores do país.
Enquanto isso, nos estados, especialmente aqueles fora das 13 colônias originais, a resposta foi criar suas próprias narrativas. Arizona, Colorado, Oregon e Utah, entre outros, organizaram exposições e eventos que abordam a história americana em toda a sua complexidade, incluindo tópicos como expansão territorial, direitos civis, imigração e a perseguição a minorias.
Mesmo longe de Washington, a tensão persistiu. As iniciativas locais receberam críticas tanto de conservadores, que as veem como anti-americanas, quanto de ativistas que questionam a legitimidade de qualquer celebração nacional diante de injustiças históricas.
O resultado final, na visão de analistas, é um retrato fiel de uma nação profundamente dividida. Pesquisas mostram que 90% dos eleitores republicanos sentem orgulho de ser americanos, contra apenas 45% dos democratas. As comemorações dos 250 anos, ironicamente, não serviram para curar essa ferida, mas para expô-la em toda a sua dimensão, revelando que a luta pela alma dos Estados Unidos está longe de terminar.
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