A paz total de Petro avança com entrega de armas de guerrilha em cerimônia na selva

Em um gesto significativo para a política de “paz total” do presidente colombiano Gustavo Petro, cerca de cem membros da Coordinadora Nacional Ejército Bolivariano (CNEB) entregaram suas armas em uma remota região de selva no departamento de Putumayo, no sul do país. O ato, que ocorreu nesta quinta-feira (18), representa um passo crucial para a consolidação de acordos de paz em meio a um cenário político e social complexo.

Vestidos com uniformes camuflados, os 99 rebeldes depuseram seus fuzis em um grande contêiner com a inscrição “Aposta na vida, cumpro a paz”. A cerimônia, testemunhada pela Agence France-Presse (AFP), simboliza a esperança de um futuro menos violento para a Colômbia, um país marcado por décadas de conflito armado.

A entrega de armamentos é vista como o maior avanço até o momento para a iniciativa do presidente Petro, o primeiro líder de esquerda na história da Colômbia, que busca negociar a paz com todos os grupos armados do país. Conforme informação divulgada, o ato também ocorre a poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais, que definirá o futuro da política de paz no país.

Um marco na política de “paz total”

A ação da CNEB é notável por ser o único grupo guerrilheiro que tem avançado de forma consistente nas negociações de paz com o governo Petro. Os membros do grupo, dissidentes do acordo de 2016 que desarmou as Farc, demonstraram um compromisso com o processo, depositando suas armas em um ato público e simbólico. Armando Novoa, chefe da delegação de paz do governo, destacou a importância do evento, afirmando que é “uma mensagem muito forte e muito poderosa para a sociedade colombiana nesta época em que há muito barulho de guerra”.

O caminho para a reintegração

Após a entrega das armas, os rebeldes da CNEB permanecerão por dez meses em uma zona especial, localizada em um antigo território de plantações de coca no Vale do Guamuez. Durante esse período, aguardarão avanços em relação ao seu desarmamento definitivo e à sua situação jurídica. Eles receberam kits de higiene e livros e serão alojados em casas equipadas com painéis solares, sob a proteção de escoltas estatais. A mobilização dos guerrilheiros, transportados por helicóptero pelas forças militares desde territórios remotos, marca o início de uma nova fase em suas vidas.

Um futuro incerto com o próximo presidente

O futuro das negociações de paz com a CNEB, e de outros grupos armados, pode depender significativamente do próximo presidente da Colômbia. No domingo (21), os colombianos escolherão entre o senador Iván Cepeda, aliado de Petro que promete dar continuidade à iniciativa de paz, e o ultradireitista Abelardo de la Espriella, que defende o fim de qualquer aproximação com organizações ilegais. A eleição do novo presidente, que assumirá o poder em 7 de agosto, poderá determinar se a mesa de negociações será encerrada, o que poderia levar à perda de benefícios como a suspensão de mandados de prisão para os rebeldes.

Contexto político e desafios da paz

A CNEB, que o governo estima ter entre 2.000 e 2.500 integrantes, é liderada por Walter Mendoza, um ex-integrante das Farc que voltou a pegar em armas em 2019. Embora o grupo domine territórios estratégicos para a produção de drogas na fronteira com o Equador, é consideravelmente menor em comparação com o Exército de Libertação Nacional (ELN) ou outras dissidências das Farc. A política de “paz total” de Petro tem enfrentado desafios, incluindo o descontentamento de Washington com a recusa em extraditar comandantes guerrilheiros comprometidos com os processos de paz. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apoia abertamente Abelardo de la Espriella, em meio a uma onda de violência que assola o país. De la Espriella propõe uma política de “mão de ferro” para combater rebeldes e narcotraficantes na Colômbia, o maior produtor de cocaína do mundo.