A Guerra no Irã: Um Estudo de Caso em Clausewitz e a Tensão entre Política e Tática

A recente guerra envolvendo o Irã, Estados Unidos e Israel, apesar de um acordo de cessar-fogo e a reabertura do Estreito de Ormuz, levanta sérias questões sobre a eficácia militar em alcançar objetivos políticos. A análise, baseada nos princípios do renomado teórico militar Carl von Clausewitz, sugere que vitórias no campo de batalha não garantiram o sucesso pretendido, evidenciando um paradoxo clássico.

Segundo Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da UFF e pesquisador de Harvard, a guerra é definida por Clausewitz como a “continuação da política por outros meios”. Essa perspectiva ressalta que uma campanha militar só é vitoriosa se atingir seus propósitos políticos. No conflito com o Irã, a desconexão entre os resultados táticos e os objetivos estratégicos e políticos parece ser o ponto central da análise.

O acordo que encerra as hostilidades, embora restaure o “status quo ante bellum” no Estreito de Ormuz, não aborda as questões cruciais que motivaram a ofensiva. A análise de Brustolin, divulgada por fontes especializadas, aponta para uma clara divergência entre os objetivos declarados e os resultados concretos obtidos por Washington e Tel Aviv.

Vitórias Táticas Evidentes, Objetivos Políticos Distantes

Em 28 de fevereiro de 2026, as operações conjuntas “Operação Leão Rugidor” (Israel) e “Operação Fúria Épica” (EUA) visaram autoridades, comandantes militares e instalações estratégicas iranianas. Os ataques, que resultaram na morte do aiatolá Ali Khamenei e de outros líderes importantes, além de causar milhares de baixas na Guarda Revolucionária, foram considerados vitórias táticas significativas. A destruição de infraestrutura nuclear e antiaérea em Fordow, Natanz e Isfahan reforçam essa percepção de sucesso militar imediato.

Contudo, a estratégia, que deveria ser a ponte entre o campo de batalha e os objetivos políticos, mostrou-se falha. Os Estados Unidos apresentaram três exigências principais ao Irã: o fim do enriquecimento de urânio, limites ao programa de mísseis balísticos e a interrupção do financiamento a grupos considerados terroristas. O objetivo político declarado era limitar a capacidade de projeção de poder do Irã.

O Paradoxo Clausewitziano na Guerra do Irã

A análise de Clausewitz distingue três pontos cruciais: o político (o porquê se luta), o estratégico (como mobilizar o poder) e o tático (os resultados no campo de batalha). Quando esses pontos se desconectam, surge o “paradoxo clausewitziano”: vitórias táticas que não se convertem em vitória política. A guerra no Irã, segundo Vitelio Brustolin, é um exemplo claro dessa tensão.

O memorando de entendimento assinado posteriormente deixa para discussão temas sensíveis como o programa nuclear iraniano e o apoio a grupos como Hamas, Hezbollah e Houthis. Para Israel, os objetivos de mudança de regime e eliminação de ameaças existenciais não foram alcançados, pois o regime iraniano não colapsou e rejeitou discutir seu programa de mísseis. Essa desconexão entre o poder militar empregado e os resultados políticos desejados é o cerne da análise clausewitziana.

Aliados em Divergência e um “Status Quo Ante Bellum” Insatisfatório

A reabertura do Estreito de Ormuz, embora apresentada como um feito, apenas restaura o estado anterior à guerra, sem representar uma conquista estratégica. As alianças regionais dos EUA sofreram abalos, com vizinhos do Golfo Pérsico apreensivos com a perspectiva de um Irã ainda resiliente. A divergência de objetivos entre EUA e Israel também se tornou evidente, com o primeiro-ministro Netanyahu declarando que Israel não aderirá ao memorando, gerando atritos com o presidente Trump.

A cena descrita, com Netanyahu em um bunker preparado para mísseis iranianos enquanto Trump anunciava o fim da guerra, ilustra a complexidade e a dissonância entre os líderes. O Irã, apesar de militarmente enfraquecido em sua marinha e força aérea, conseguiu manter seu regime, programa de mísseis e apoio a proxies, demonstrando que, em termos de instrumento político, a guerra funcionou melhor para o derrotado taticamente.

Lições Ignoradas da História Militar

A análise conclui que os objetivos políticos traçados por Estados Unidos e Israel não foram sustentados pelos meios necessários para alcançá-los militarmente. A necessidade de uma ocupação territorial para atingir plenamente os objetivos teria sido uma guerra longa e impopular, contrariando a política externa de Trump. A lição de Clausewitz, de que a política deve governar a estratégia do início ao fim, parece ter sido ignorada, resultando em vitórias táticas que se dissolveram, sem conduzir aos objetivos estratégicos e políticos almejados.