Vaticano Pede Perdão De Joelhos a Povo Indígena Peruano Por Roubo de Terras Ligado a Grupo Religioso
Em um gesto de profunda humildade e reconhecimento, representantes da Igreja Católica se ajoelharam para pedir perdão às comunidades camponesas herdeiras do povo indígena Tallán, no Peru. Por anos, essas comunidades denunciaram o roubo de suas terras e perseguições por parte de empresas ligadas ao Sodalício de Vida Cristã, um agrupamento religioso ultraconservador.
O pedido de desculpas ocorreu no final de maio, na cidade de Catacaos, no noroeste do Peru. Monsenhor Jordi Bertomeu, enviado especial do Vaticano, expressou o pesar da Igreja por ter chegado tarde, admitindo que o pedido deveria ter sido feito há duas décadas.
“Sentimos muito por isso”, declarou Bertomeu durante a missa, ressaltando a tristeza e a vergonha por ações passadas de membros da Igreja. A cerimônia foi motivada por um processo de escuta liderado pelo próprio monsenhor, atendendo a um pedido da comunidade San Juan Bautista de Catacaos. Conforme divulgado pela BBC Mundo, Bertomeu descreveu o momento como emocionante, carregado de um peso histórico e da necessidade de aprender com os erros para que não se repitam.
A Longa Luta por Justiça e Terras Ancestrais
A disputa pelas terras da comunidade San Juan Bautista de Catacaos remonta a 1998. Os membros da comunidade afirmam que seus direitos territoriais vêm de reconhecimentos comunitários da época do Vice-Reino do Peru e até de períodos pré-coloniais. Eles reivindicam a posse coletiva como herdeiros dos Tallán, um dos povos originários mais antigos do norte peruano.
Alegam que, por não possuírem títulos de propriedade individuais, uma transferência de terras supostamente fraudulenta foi registrada em dezembro de 1998. Percy Maza, membro da comunidade, relatou à BBC Mundo que os responsáveis “fizeram o que quiseram conosco porque somos pobres, somos do campo, não conhecemos as leis”.
Paula Sandoval, mãe de Percy Maza, expressou sua emoção com a vinda dos padres para pedir perdão, considerando-a uma “justiça divina”. A comunidade denuncia que, através de uma suposta assembleia, quase 10 mil hectares de suas terras teriam sido transferidos para 100 camponeses, muitos dos quais desconheciam o evento ou afirmaram não ter assinado a ata de transferência. As terras foram subsequentemente repassadas a empresas, incluindo a Asociación Civil San Juan Bautista, ligada ao Sodalício.
O Papel do Sodalício e as Alegações de Abuso
A jornalista Paola Ugaz, que investigou os vínculos econômicos do Sodalício no Peru, destacou à BBC Mundo que, na época, a ligação entre o poder econômico e religioso não era clara. A Asociación Civil San Juan Bautista foi fundada por José Antonio Eguren, ex-arcebispo de Piura e líder histórico do Sodalício, que mais tarde foi expulso da organização pelo Vaticano.
Embora Eguren tenha renunciado ao conselho da empresa ao assumir funções eclesiásticas, pessoas próximas indicam que o movimento religioso manteve forte influência nas decisões. Em 2024, Eguren negou envolvimento em um esquema de tráfico de terras.
A Asociación Civil San Juan Bautista (ACSJB), em resposta ao pedido de desculpas do Vaticano, rejeitou veementemente qualquer participação em transferências ilícitas de terras. Em comunicado, a ACSJB afirmou que as aquisições foram realizadas legalmente em 2012, de proprietários legítimos registrados. A empresa refuta as acusações, alegando que uma narrativa busca atribuir responsabilidades sem respaldo jurídico.
A Escalada da Violência e a Busca por Reparação
A situação se agravou em dezembro de 2011, quando camponeses encontraram cercas sendo instaladas em suas terras. Ao confrontarem os invasores, relata-se que houve disparos, resultando na morte de Guadalupe Zapata Sosa. O Vaticano reconheceu Zapata como um dos “líderes indígenas falecidos após se opor ativamente ao tráfico de terras vinculado a empresas do Sodalício”.
A decisão do Papa Francisco de suprimir o Sodalício de Vida Cristã em abril de 2025 foi baseada em denúncias de abusos sexuais, corrupção e má administração de bens eclesiásticos. Monsenhor Bertomeu mencionou que investigações do Vaticano levantaram suspeitas de que o grupo operava por meio de estruturas jurídicas de fachada.
Em 2022, processos contra os camponeses por tentarem recuperar terras foram arquivados. Contudo, em maio de 2026, a Justiça peruana rejeitou uma ação de amparo constitucional que buscava a restituição das terras, argumentando que o caso se tratava de uma controvérsia legal, não constitucional. A defesa dos camponeses busca agora o Tribunal Constitucional do Peru e considera recorrer a organismos internacionais.
O Vaticano prometeu um caminho de reparação, não apenas simbólica, mas também econômica, através da liquidação dos ativos do Sodalício para compensar as vítimas. A comunidade espera ainda uma eventual visita do Papa Francisco ao Peru.