Peru elege nono presidente em uma década em disputa acirrada entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez, com futuro incerto.

O Peru se dirige às urnas para eleger seu nono presidente em apenas dez anos, em um cenário de profunda polarização e fragilidade governamental. Após um primeiro turno conturbado, a disputa se afunila entre a direitista Keiko Fujimori e o esquerdista Roberto Sánchez, em uma eleição que reflete décadas de instabilidade política no país.

Keiko Fujimori, herdeira política do controverso ex-presidente Alberto Fujimori, busca a presidência pela quarta vez, enquanto Roberto Sánchez, ex-ministro do governo de Pedro Castillo, representa a ala de esquerda. Ambos enfrentam altos índices de rejeição, mas a decisão final pode depender de um expressivo número de eleitores indecisos.

A disputa eleitoral no Peru é frequentemente marcada pelo confronto entre o fujimorismo e um candidato opositor, onde o antifujimorismo desempenha um papel crucial. A herança de Alberto Fujimori, com acusações de corrupção e violações de direitos humanos, ainda divide o país, enquanto a associação de Sánchez com o governo de Pedro Castillo, marcado por desordem e corrupção, também gera desconfiança.

Keiko Fujimori: A Persistência da Herdeira Política

Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, é uma figura política resiliente. Esta é sua quarta tentativa de chegar à presidência, após derrotas em 2016 e 2021. Sua campanha tem se apoiado na promessa de “volta à ordem”, evocando a imagem de seu pai como um líder firme que estabilizou o Peru nos anos 90. No entanto, o legado de Alberto Fujimori é complexo, lembrado tanto pela estabilidade quanto por violações de direitos humanos e reformas econômicas drásticas.

O sobrenome Fujimori é um trunfo e um fardo para Keiko. Sua trajetória política começou cedo, assumindo um papel institucional como primeira-dama após o divórcio de seus pais. Após estudos nos Estados Unidos, dedicou-se à política, sendo eleita congressista em 2006. Um escândalo de lavagem de ativos ligado à construtora Odebrecht, do qual chegou a ser presa, foi arquivado pelo Tribunal Constitucional, permitindo sua candidatura atual.

Entre suas propostas, destacam-se a construção de megaprisionamentos de segurança máxima e a retirada do Peru da Corte Interamericana de Direitos Humanos. A morte de seu pai em 2024 parece ter impulsionado sua campanha, buscando capitalizar o sentimento de que o país necessita de medidas firmes.

Roberto Sánchez: Do Governo Castillo à Disputa Presidencial

Roberto Sánchez Palomino, psicólogo de formação e ex-ministro do Comércio Exterior e Turismo durante o governo de Pedro Castillo, emerge como uma figura de esquerda. Sua proximidade com Castillo, o único ministro que permaneceu durante as constantes mudanças de gabinete, tornou-se um ativo político inesperado. Ele reivindica a ligação com o governo Castillo, utilizando símbolos como o chapéu de camponês, que se tornou um ícone do Peru rural.

Sánchez conseguiu angariar apoio em setores que levaram Castillo ao poder, especialmente no sul do país, afetado pela violência e pelo ressentimento contra a elite política de Lima. Seu estilo moderado e sereno o diferenciou em meio à tensa conjuntura política. Ao contrário de outros membros do gabinete, Sánchez não enfrentou processos judiciais relacionados à tentativa de Castillo de dissolver o Congresso.

Sua renúncia pouco antes da destituição de Castillo e sua abstenção na votação do Congresso foram interpretadas como uma estratégia para não afundar junto com o ex-presidente. Castillo, por sua vez, pediu votos para Sánchez em uma de suas últimas audiências judiciais, explorando o descontentamento de setores rurais com o destino do ex-presidente.

O Voto Indeciso e a Fragmentação Política

Um fator determinante nesta eleição é o voto indeciso, que, segundo pesquisas do instituto IEP, representa cerca de 25% do eleitorado. Este grupo pode pender para qualquer um dos lados, influenciando significativamente o resultado. Memórias de corrupção, violações de direitos humanos e autoritarismo associados ao fujimorismo têm sido resgatadas nas redes sociais, buscando influenciar essa parcela do eleitorado.

A mobilização eleitoral em diferentes regiões também será crucial. Keiko Fujimori precisa de alta participação em Lima, seu reduto urbano, enquanto Sánchez depende da votação em áreas rurais e no sul do país, onde possui forte popularidade. A disputa entre áreas urbanas e rurais pode ser decisiva em um resultado que se prevê muito apertado.

A Crise de Governabilidade e o Papel do Congresso

Independentemente de quem vença, a governabilidade do Peru permanece uma grande incógnita. O Congresso peruano tornou-se um ator central na estabilidade política, com poder para condicionar as ações do Executivo. A fragmentação partidária e a ausência de maiorias sólidas têm gerado instabilidade crônica, com frequentes destituições de presidentes e confrontos entre os poderes.

A capacidade do presidente eleito de construir alianças em um Congresso volátil será mais determinante para a estabilidade do que o próprio resultado eleitoral. A deterioração da qualidade de vida da população, aliada à ascensão do crime organizado, como o “sicariato” e a extorsão, agrava o cenário de crise, conforme aponta o cientista político Alonso Cárdenas. A persistência desses desafios indica que o Peru enfrenta um longo caminho para superar sua instabilidade crônica.