Guerra na Ucrânia: Soldados Recorrem a Drogas para Suportar o Conflito, Vício se Espalha no Front

A guerra na Ucrânia, que já se estende por um período prolongado, tem levado soldados de ambos os lados a buscar refúgio no uso de substâncias químicas para suportar as adversidades do front. O vício e a automedicação emergem como um problema crescente, embora muitas vezes negligenciado, à medida que o conflito se arrasta.

Essas substâncias são utilizadas para aliviar dores de ferimentos, combater o sono, suprimir o medo e manter a capacidade de funcionar em condições extremas. A dura realidade do combate, com ferimentos graves e um ambiente emocionalmente desgastante, leva muitos a recorrerem a meios drásticos.

Essa situação tem sido documentada por relatos de militares e analisada por especialistas. Conforme informações divulgadas pelas fontes, a dependência química pode se tornar um fardo persistente mesmo após o fim dos confrontos, afetando a reintegração dos veteranos à vida civil.

Drogas como Ferramenta de Sobrevivência no Campo de Batalha

Dmytro, um oficial ucraniano em recuperação, descreve a guerra como um cenário de horrores físicos e emocionais, onde o uso de drogas se torna quase inevitável. “Guerra significa braços e pernas arrancados. São intestinos, mau cheiro e sujeira no corpo. Você se urina, você se suja. É um estado emocional extremamente difícil”, relata. “Uma pessoa que nunca usou nada na vida acaba usando ali.”

Muitos soldados ucranianos permanecem na linha de frente por longos períodos, sem descanso, devido ao recrutamento contínuo e à ausência de planos de desmobilização. Essa exaustão prolongada contribui para a dependência.

Stanislav, que desertou de sua unidade após atuar na contraofensiva em Zaporíjia, compartilhou sua experiência com a metadona, um potente analgésico opioide. “Quando você está sob efeito da metadona, consegue esquecer um pouco. Não é que você ganhe ‘força’. É mais que você consegue se distanciar daqueles horrores e daquela ansiedade constante.”

Um Histórico de Drogas em Conflitos Armados

O uso de substâncias em contextos de guerra não é um fenômeno novo. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha nazista distribuiu metanfetaminas às suas tropas. As Forças Armadas dos Estados Unidos também forneceram estimulantes a recrutas por décadas, desde a Segunda Guerra até os conflitos no Afeganistão e Iraque.

No Vietnã, até 15% dos soldados americanos usaram heroína, não para melhorar o desempenho, mas como um mecanismo de enfrentamento para lidar com os traumas da guerra.

Atualmente, soldados ucranianos, em sua maioria jovens, recorrem a uma variedade de estimulantes e opioides. Especialistas alertam que a dependência química adquirida no front pode acompanhá-los indefinidamente.

Impacto Duradouro da Dependência Química em Veteranos

Ihor Alferow, psicoterapeuta com vasta experiência em dependência química e capelão militar, observa que exércitos que lutam por quatro anos sem rodízio de tropas enfrentam consequências bioquímicas alteradas nos combatentes. “Essas pessoas voltam com a bioquímica alterada. E não se interessam mais por nada: nem família, nem casa, nem trabalho, nem carreira”, afirma.

O estresse do combate, aliado à falta de apoio em saúde mental, tem impulsionado o uso de substâncias. A organização Health Solutions, que pesquisa o uso de drogas em ambientes civis e militares, documenta esse aumento.

Victoriia Tymoshevska, diretora-executiva da Health Solutions, estima que metade dos militares na linha de frente já experimentou algum tipo de droga, frequentemente combinando álcool com outras substâncias. “Mesmo nos casos em que são gravemente feridos, hospitalizados e tratados, os militares continuam com dores mal controladas, além de sintomas de Transtorno de Estresse Pós-Traumático e outras condições psicológicas que exigiriam uma combinação de tratamento médico, farmacológico e psicoterapia,” diz.

Desafios na Recuperação e a Tolerância Informal

Para muitos combatentes, as drogas oferecem um alívio temporário, mas representam um risco imediato para sua performance no front. Tymoshevska explica que existe uma tolerância informal: “A prática informal é que, desde que não afete sua capacidade de cumprir o dever e participar das missões, isso é tolerado, ou seja, fazem vista grossa. Desde que você opere, compareça ao serviço e cumpra as tarefas designadas.”

O problema se agrava na desmobilização, quando faltam serviços de saúde adequados para veteranos. “Não há lugares onde veteranos possam se encontrar, passar tempo, ir a museus, à natureza. Não temos psicólogos trabalhando para oferecer serviços de reabilitação,” lamenta Dmytro.

Recentemente, o apoio governamental a soldados com dependência química foi incluído como projeto-piloto na estratégia para veteranos ucranianos. Contudo, o uso de drogas continua estritamente proibido nas Forças Armadas, com punições severas para os flagrados.