Deserto do Atacama se Torna Lixão de Roupas Globais: Entenda Como Seu Guarda-Roupa Contribui e a Nova Chance de Reciclagem
Roupas descartadas em países como Reino Unido, Estados Unidos e Canadá encontram um destino inesperado e problemático: o árido Deserto do Atacama, no Chile. O país sul-americano, um dos maiores importadores de vestuário usado do mundo, enfrenta há décadas o acúmulo de toneladas de peças que não conseguem ser revendidas, formando verdadeiras montanhas de lixo têxtil.
Essa situação, que representa um grave problema ambiental, está prestes a mudar. Uma nova legislação chilena, focada na responsabilidade estendida do produtor, está impulsionando um investimento milionário na criação de uma fábrica capaz de transformar essas roupas em novos materiais, oferecendo uma solução inovadora para o descarte ilegal.
Conforme informações divulgadas, o Chile importa cerca de 123 mil toneladas de roupas usadas anualmente, sendo a Zona Franca de Iquique (Zofri) o principal ponto de entrada. O que antes era um problema sem solução clara, agora se desenha como uma oportunidade de negócio promissora, com potencial para lidar com grande parte do estoque indesejado.
O Caminho das Roupas Usadas até o Deserto Chileno
A Zona Franca de Iquique, criada em 1975 para fomentar o desenvolvimento econômico do norte chileno, tornou-se um hub para a importação de roupas usadas. Empresas locais e de países vizinhos podem importar, armazenar e vender essas mercadorias com isenção de impostos. Cerca de 50 empresas de importação de roupas atuam na região, gerando empregos, especialmente para mulheres, que se dedicam à classificação das peças.
No entanto, as peças de menor qualidade ou que não encontram compradores acabam em La Quebradilla, um vasto mercado a céu aberto próximo a Alto Hospicio. Ali, pilhas de roupas são vendidas a preços acessíveis, atraindo consumidores em busca de pechinchas. O desafio surge com as peças que não são vendidas, pois não podem ser descartadas em aterros sanitários locais destinados a resíduos domésticos.
As opções legais para os comerciantes incluem exportar as roupas, pagar impostos para vendê-las no Chile fora da zona franca, ou enviá-las para tratamento de resíduos. Contudo, a falta de incentivo e os custos associados levam muitos a optar pelo descarte ilegal, seja por incineração ou lançamento direto no Deserto do Atacama. Estima-se que cerca de 39 mil toneladas de roupas sejam descartadas ilegalmente dessa forma a cada ano.
A Nova Fábrica de Reciclagem Têxtil no Atacama
Diante desse cenário, surge uma solução promissora. Luis Martínez, diretor-executivo do Centro Tecnológico de Economia Circular (CircularTec) em Iquique, liderou um projeto para encontrar novos usos para as roupas não vendidas. O objetivo é evitar que o Deserto do Atacama se torne um destino turístico macabro de montanhas de vestuário.
Uma fábrica inovadora está em construção no deserto, administrada por uma empresa privada. O empresário Bekir Conkur, um dos maiores importadores de têxteis da região, está investindo US$ 7 milhões (cerca de R$ 35 milhões) nesta planta. A fábrica utilizará máquinas que transformarão as roupas em fibras e, posteriormente, em feltro. Esse material será empregado na fabricação de colchões, móveis, interiores de automóveis e isolamentos, com capacidade para processar 20 toneladas por dia.
Mudança Legislativa Impulsiona a Inovação
A decisão de investir na fábrica foi motivada, em parte, por uma mudança significativa na legislação chilena. Em julho do ano passado, os tecidos foram incluídos na Lei de Responsabilidade Estendida do Produtor. Essa lei responsabiliza as empresas pela destinação final dos produtos que vendem, incluindo a coleta, o reuso, a reciclagem ou o descarte adequado de itens têxteis, sem onerar os governos locais.
Embora os detalhes específicos para o setor de vestuário ainda estejam sendo definidos pelo governo, para empresários como Conkur, essa é uma oportunidade de negócio clara. A expectativa é que a nova fábrica não apenas resolva o problema do estoque indesejado no Chile, mas também possa, no futuro, processar roupas de outros países, transformando o lixo têxtil em um recurso valioso e sustentável.